11.5.17

Sista Grrrl Riot: representatividade & resistência das mulheres negras na cena underground


"Eu não sou uma 'punk negra'. 
Eu sou negra e gosto de punk” 

Tasha Fierce


"Existe na linguagem de todos os movimentos que estão supostamente
preocupados em eliminar a opressão sexista, 
a atitude sexista-racista em relação às mulheres negras"
bell hooks


Quando eu tinha quinze anos vivi uma fase mergulhada nas bandas do movimento punk Riot Grrrl. O hino de Bikini Kill ( "rebel girl you're the queen of my world") também foi o meu. Havia algo bonito que se colocava de olhar outra mulher com admiração (já que socialmente somos formadas para competir), além de uma luta de resistência feminista dentro de uma cena (como todas, afinal) majoritariamente formada por homens (e seus machismos).

O movimento Riot Grrrl também é associado à terceira onda feminista, do início dos anos 90, "nascido da frustração com a sociedade e cena musicial que reforçava a ideia que, como o Manifesto Riot Grrrl diz, 'Garota=estúpida', Garota=ruim', 'Garota=fraca'" (Gabby Bess). Impuseram-se politicamente através de seus zines, spoken words e músicas. Entre as mais conhecidas também figuram bandas como L7, Babes in Toyland e Dominatrix (aqui em São Paulo).

Há muita importância em relembrar que "punk rock não é só para o seu namorado", mas eu queria falar, brevinho, de como sistematicamente nós, mulheres negras, fomos mais uma vez apagadas da história. O porre de ter de lidar, em todas instâncias, com a dupla discriminação sexista-racista (e tripla, considerando classe). 

À época, quatorze anos atrás, isso não era uma questão pra mim; menina negra do interior de São Paulo, que não sabia que era negra e que não teve contato com conteúdos que promovessem o debate racial. Hoje, no entanto, não me é possível passar sem um tremendo desconforto. O fato é que estive relembrando essas bandas por ter descoberto o documentário - "The Punk Singer" (2013) - retratando um bocado da vida de Kathleen Hanna (Bikini Kill  / Le Tigre), tida como precursora do movimento, e fiquei encucada com a mesma velha questão: onde estamos nós? 

O impulso de curiosidade, e alguma centelha de esperança, me fez procurar nos recônditos da internet informações e/ou artigos sobre bandas do movimento Riot Grrl formadas por mulheres negras ou da qual fizéssemos parte. Não foi com grande surpresa, mas a mesma velha decepção, que praticamente nada me apareceu, e digo praticamente já sentindo uma utilização eufêmica. 

Para não dizer que não há nada, existe um artigo - muitíssimo bom!! - postado no Broadly Vice, escrito pela poeta e artista multimídia afro-americana Gabby Bess - "Alternativas para as alternativas: as garotas negras ignoradas pelo riot grrrl" - no qual ela começa dizendo de um incômodo similar ao meu, porém, diante de uma publicação da Universidade de Nova York, uma coleção Riot Grrrl, com os zines, diários, memórias dentre as quais apenas 01 é de uma mulher negra - Ramdasha Bikceem "a amiga negra das Riot Grrrl". 

Bess desfia essa história em busca de outras nossas, fala da importância do conteúdo de Bikceem, que não se furtava a fazer críticas em seu Zine, o "Gunk", da falta de interseccionalidade dentro do movimento.

Bess parte do zine para a cena musical especificamente, com a missão política de dar voz aquelas que foram ( e ainda são) invisibilizadas, as que fogem da descrição tida como comum no Riot Grrrl "jovem, branca, suburbana e de classe média", ela diz, "em contraste com essa rígida narrativa do Riot Grrl branco, mulheres negras participaram, sim, do movimento. Poucas e distantes entre si, mas, todavia, elas participaram e merecem mais do que serem colocadas embaixo do tapete da branquitude".

Assim pude conhecer Tamar-Kali Brown, Honeychild Coleman, Maya Glick e Simi Stone, precursoras do que viria a ser o movimento Sista Grrrl Riot, condensado em uma série de eventos onde mulheres negras - banda ou solo - apresentariam sua música, sua voz, sua narrativa. Bess entrevista essas mulheres que falam sobre a falta de representatividade, da emoção de encontrar outra Sista da música e do punk, de como nunca tinham tocado para tantas pessoas negras até o evento feito por elas mesmas.

Uma frase do artigo "afinal rock music é black music" me lembrou outro artigo muitíssimo bom, do Jun Alcantara - "Por que precisamos provar que a música negra é negra?", que perpassa vários estilos onde músicos negros foram os precursores, dentre os quais, a banda de hardcore punk Bad Brains - ótima! - mas que não tiveram a mesma notoriedade que músicos brancos por uma questão racista estrutural e mercadológica. 

Penso ainda em nosso contexto nacional, onde a mulher negra é construída no imaginário para ser passista ou serviçal, quem dirá de tantos recortes? mulher, negra, feminista, punk? A falta de comprometimento geral das pessoas brancas, e consequentemente das mulheres brancas, dificulta um dos pontos do próprio manifesto onde: "PORQUE fazendo/lendo/vendo/ouvindo coisas legais que validam e nos desafiam podem nos ajudar a ganhar força e senso de comunidade que nós precisamos, para entender como merdas como racismo, capacitismo, etarismo, especismo, classicismo, padrões de beleza, sexismo, anti-semitismo e heterosexismo funcionam em nossas vidas.". Já que, como Bikceem coloca: como desejam discutir racismo em uma sala onde quase não se tem mulheres negras?

hm?

Retomando o novelo da memória, da adolescência, dos festivais punks em São José dos Campos, no centro de juventude ao lado do cemitério central da cidade, entendo que não é a toa que minha lembrança mais forte seja da única mulher negra, integrante da banda cólica, destruindo na bateria. Tivesse já esse debate em mim, saberia ter encontrado também uma Sista.

Então, para que cada vez mais nos saibamos plurais, como somos, trouxe alguns sons que essas leituras me presentearam:

Poly Styrene (X-Ray Spex) ( 1978) https://www.youtube.com/watch?v=AqdeoxwyvKk

Yvonne Ducksworth (Jingo de Lunch) (1989) 

https://www.youtube.com/watch?v=7obII4NHr9Y

Tamar-Kali Brown (2010) https://tamar-kali.bandcamp.com/album/black-bottom

Big Joanie (2013)
https://bigjoanie.bandcamp.com/


Natália Munroe (Kali) (2014)
 http://tnb.art.br/rede/kalibr





Referências

https://drive.google.com/file/d/0B7PVxOGeM8MuN0hLNDVYalRJN3c/view?pli=1

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