13.3.17

trava-línguas

Por João Victor
 e incontáveis-mais.


trava a língua
e conta:

quantos
pretos
pobres
precisam

pra matar
a fome
de tanto
rei-zin
esfomeado?

trava e no
sibilar
do
entre-dentes

risca a lousa
e mostra

onde que essa
conta fecha.

[aguardo]


a balança não tá
equiparada,

não sinhô!

d'um lado
espanca'rrasta

doutro
'laudo médico'

e.. well, well, well

voltamos àquela
adivinhança

quem é que pode falar,
afinal?

"eles têm fatos, 
nós temos opiniões.

eles têm conhecimento, 
nós temos experiência"


me calo, pois.

mas,
vem e

trava
essa tua língua
toda migalha de fartura

e
me
diz

bem rapidinho
três vezes:

quantos tigres
tristes mais
nas entranhas
das favelas?

quantas
caçapas
com
carcaças
escondidinhas
em ruelas?

quantas rimas
necessárias
pr'assumir teu
genocídio?

vamo-lá,
bem depressinha,
seu dotô,

que o relógio
dos
ratos

ruge
mais alto
qu'estalo
de ratoeira.

arredonda teu
argumento

sem gaguejar
com linguinha
travada

projeta a voz
do alto do
cadafalso

ou
silenciosamente
pisa-ligeiro

antes que
sabiá assobie
solto

anunciando
enxurrada.




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