30.3.17

Fragmento: "se não for a minha história, eu não vou contar: por uma representação negra"

"(...)A mentalidade racista que retirou os negros da África e os trouxe cativos para a América utilizou-se de todos os artifícios para desumanizar nossa história e nossas memórias, desumanizou nossos corpos, endemoniou nossas crenças, transformando nosso cotidiano em momentos sombrios, indignos de serem rememorados. Os racistas pintaram um quadro sobre a história em que somos somente o pano de fundo. O resultado disso na arte e na literatura, foi um desfile de personagens negros que transitavam entre os temas da escravidão e da marginalidade. A mentalidade racista nos reservou, na vida e na arte, os papéis de escravos, bandidos e prostitutas, figurantes da histórica branca, personagens que não tinham nem origem e nem fim; se apropriou da nossa história para transformarem-se em heróis brancos de negros fracos e desarticulados; transformaram o branco escravocrata em herói abolicionista e o negro lutado em inimigo, bandido, tudo isso com o único intuito de nos excluir e de nos inferiorizar, afirmando a superioridade branca. Ficamos reféns da única história: a história difundida pelo colonizador e pelos seus descendentes, que varreram nosso passado ancestral para baixo do tapete. Só há, do ponto de vista das classes hegemônicas que dominam o mercado literário e artístico, uma única trajetória na vida da pessoa negra: um passado de escravidão, um presente na marginalidade e um futuro de morte prematura, por bala ou doença.

É contra essa corrente que nós, artistas e escritores, devemos lutar. Devemos dar um passo à frente e, com o nosso trabalho, difundir as histórias que queremos contar, as histórias que nos aquecem, de que nos orgulhamos, Histórias da África, terra fértil de onde viemos, histórias de nossos pais, nosso cotidiano, nossas amarguras, mas também nossas felicidades, os momentos de poesia de nossas vidas. É de extrema importância que contemos também a história da escravidão, pois ha dividas que merecem ser pagas pela sociedade ao povo negro, mas contemos a historia ao nosso modo, do lado de quem estava resistindo dentro da senzala e também nos quilombos. (...)"


Débora Almeida, 2016

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