8.2.17

como amar?

"- amor tem cor?
- depende do país."
[lázaro ramos e claudete alves.] 

"(...)
Nós negros temos sido profundamente feridos, como a gente diz, 'feridos até o coração', e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando (...)."
[bell hooks, vivendo de amor] 

Quando se trata de amor sinto que as mulheres negras sempre, em algum momento, vão se sentir preteridas. Mesmo quando consideradas inteligentes e bonitas (se essa beleza, por um milagre, não está atrelada a uma hipersexualização). Mesmo a mulher negra vista como companheira e não como mucama (de onde, lembrando Lélia Gonzalez, se engendrou a figura da mulata e da doméstica: uma para servir os desejos ocultos do sinhô, outra para servir as necessidades da casa e da família do mesmo), precisa - tantas e tantas vezes - lidar com o fato de que para seu companheiro, o tipo físico ideal - cabelo, pele, nariz, lábios - ainda possuem um intrínseco imaginário branco, europeu / norte americano - que pode saltar às vistas em minúcias. Em se pensando no homem não branco e negro, ela ainda precisa se esforçar para alcançar Fanon e ter o dobro da alteridade. Sendo ela feminista, cobra-se de lutar todo segundo para não cair em pensamentos autodestrutivos que busquem suprir o que se pensa que o outro quer (que a estrutura lhe aponta como seu dever em suprir), em não repetir comportamentos dos quais já conseguiu - não sem uma coleção de feridas - escapar. Ela precisa repetir para si que o desejo é uma construção social, que desejar o branco como regra, como o único desejo óbvio, é ainda, inconscientemente, querer destruir uma negritude, é ainda aquele prefácio de Jurandir Freire dizendo que um dos traços do racismo é a relação persecutória do negro com seu corpo. Ela precisa sempre lembrar de bell hooks quando diz que nós negras e negros fomos impedidos de amar pela escravidão: foi preciso endurecer-se para suportar os açoites, os estupros, os assassinatos dos seus e dos seus amores. Precisa repetir todo dia que merece sim receber respeito, doçura e zelo, que isso é o mínimo numa troca afetiva. Precisa repetir exaustivamente, enfrentando o nó que esgana garganta, que sua busca não é dar conta do outro, da construção do outro e de seus desejos. Precisa olhar para os próprios quereres e olhar pra si com amor, cuidado, reverter a "mãe preta" e ser a sua própria generosidade. 

Precisa saber, sobretudo, ir embora se fragmentos seus ameaçarem se desprender, mas também saber ficar, enquanto for mansidão, enquanto a energia pulsar formas de vida.

Preciso.
Precisamos.

Um comentário:

Daisy Serena disse...

Referências.

bell hooks - https://drive.google.com/file/d/0B2_ZK-qR9WEKZDk4ZTM3MDQtNTlkZS00NjAxLTkyYWQtMDc4YzUwNDgxYmY4/view

lélia gonzalez - https://drive.google.com/file/d/0B2_ZK-qR9WEKNDYxYTU5ZWEtZTJkZi00ODkxLWIxZTYtMjI4YzkzNTY1MGJi/view?usp=drive_web&ddrp=1&hl=pt_BR#

frantz fanon - http://unegro.org.br/arquivos/arquivo_5043.pdf

jurandir freire - http://www.sedesweb.org.br/Departamentos/Psicanalise/pdf/dacoraocorpo_jurandirfreire.pdf

programa espelho - https://www.youtube.com/watch?v=hmvSLJOY0n0