8.12.16

quem escuta as vespas sussurrando por trás dos meus ouvidos?!

"Para mulheres, então, poesia não é um luxo. Ela é uma necessidade vital de nossa existência. 
Ela forma a qualidade da luz dentro da qual predizemos nossas esperanças e sonhos 
em direção à sobrevivência e mudança, primeiro feita em linguagem, 
depois em ideia, então em ação mais tocável. "
[Audre Lorde, 2012]



nnegra!

quem escuta as vespas sussurrando por trás dos meus ouvidos?!

caio em velha arapuca: pareço uma louca, afinal? em seguida, desconfio do pensamento. no entanto....terei inventado, uma e outra vez? é certo que não vi seus rostos... mas tenho os retratos por dentro dos olhos, sei de cor as junções que formam seus traços (imaginários construídos para serem o modelo a se desejar e amar). não vi seus rostos, mas vi seus carros último modelo desfilando pelo bairro, janelas reforçadas e, pelas frestas, os malditos sussurros de vespas.

nnnegra!

há dias e dias, é certo.

dias em que minha travessia e seus zunidos se desencontram no labirinto urbano.

noutros, seus voos rasantes e desengonçados me achegam apenas risíveis. afasto-os espanando com movimento ligeiro dos dedos, sigo meus passos e logo a memória dá conta de arquivar na lixeira.

nnnnnnegra!

há aqueles em que o tropeço foi dado ao sair da cama, que tenho a impressão de que as tralhas estão alguns milímetros fora do lugar, provocando qualquer alvoroço dolorido quando de olhares pousados em mim.

nnnnnnegra!

há, ainda, dias como a maior parte dos dias; comuns (se é possível convocar qualquer normalidade a este ano): solzinho, autoestima mediana, escritório, almoço com a irmã (partilha da hora de descanso para engendrar amor), corriqueiro.

é aí, no ordinário, que me afeto num lugar esquisito. dias comuns não deveriam incluir vespas sibilando logo após o cafezinho. dias comuns passam em meio tom, e é por isso que um desvio de rota instala nó encalacrando garganta, é por isso a surpresa do chorinho inquieto na condução pública, não é pena de si não, é raiva mesmo, visse.

nnnnnnnnnegra!

todo dia há dias, dias, e dias demais. cabe d'um tudo: repetições, fortalecimento, ansiedade, elogios, luta, raiva, diálogos, dicotomias, a busca infinda d'uma construção conjunta.  todo dia todo mundo quer ser black power, mas é na ruptura de um dia insosso, que o ferrão de vespas me grita amargo, que preto, ahh, preto ninguém quer ser não.  

[e dizer isso já foi tomado por banalização e clichê, como se resoluto - rá! -, e no entanto, repetem-se situações e, com elas, a necessidade de fala.]

há, no através desses todos dias, raízes purulentas que busco desinflamar, desinfectar. há feridas em demasia, marcas de guerras coloniais, batalhas travadas noutras terras, noutros corpos, mas ressoados neste que é todo meu e, ao tempo mesmo, polifônico: reviro conforme o pau, o açoite, o chicote (matéria sintética ou carne do sinhô).

os insetos, quando em vez, simulam apreço, camarás, mas a verdade é que não botam descanso, esganiçam noite adentro às portas dos quilombos.

não se enganem, mas não temam. que já diriam as mais velhas:  vespa que muito sibila, tem ferrão de plástico.

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