8.9.16

para ser lama é preciso ser lume

a gente se afeta, se afasta, repuxa por medo do afetamento que dado está. a gente é lama, mas esquece, às vezes, que é pra ser lama de Ana em sua dança-expurgo de Raduan Nassar, a gente acaba confundindo e vai para o dia laminha de Ana.C ( my dear, tu que perpassa também meus versos. eu, que nada suicida, já te vi por dentro de minhas pálpebras: olhos fechados de lágrimas; tu, palavras-navalhas, certeiros-gatunos, classe média carioca que não me diz, embora tu me digas tanto, na tua lama que perpassa meu movediço. te vi, por dentro de olhos cansados, minha irmã, no teu banho daquela manhã, no impulso pra fora da janela do quarto: foi voo pr'um lugar de dentro).  nós, demasiadamente humanos, nos entregamos, têm dias, facilmente aos repuxamentos... porque é quente, não é? uma coberta tão velhinha, tão confortável em suas dores. fingimos que a vida nem é tão efêmera, que podemos perder quinzehoras (e, às vezes, podemos sim) em paralisia. é tanto fingimento, meu deus, que de repente, nem sabemos mais o que nos arrastou, só a impotência se coloca na altura das vistas. então, é num supetão, como  golpe de adrenalina, uma rajada de ar pulsando artérias e subjetividades: a gente se afeta, porra! a gente se afasta, mas tem pernas pra voltar, mãos que alcançam o outro, ainda que seja para o toque final, para decorar o caminho do rosto, a textura da pele, ainda que seja para o adeus, a gente se afeta, se toca, se troca. tanta troca, é tanto enredamento possível, que um não precisa apagar o outro. me disseram um dia que as paixões podem sim coexistir, que são sublimações. eu já sabia disso quando perguntei, sabe? é que é tanto descuido, que as vezes precisamos lembrar da nossa humanidade, que a gente é barro, mas também é sangue.  a gente se afeta, mas ninguém vê os dedos, suados, friccionando uns aos outros embaixo da mesa. ninguém se atenta aos detalhes quando a boca, teimosa, diz altiva e mentirosa, que não!

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