15.9.16

Mulheres Negras: Projetos de Mundo!

"Da língua cortada, digo tudo, / amasso o silencio
e no farfalhar do meio som /solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior, / aquela que emudecida,
conservou a voz e os sentidos / nos labirintos da lembrança."
[Conceição Evaristo / Meia Lágrima, 2008]


É preciso estarmos atentas e atentos a uma diferença óbvia: silêncio / silenciamento.

Silenciamento; arma opressora, disfarce de adaga em ponta de borracha. Costura a história transpassando barbante, banhado a ouro, na rija estrutura: colonizadora, capitalista, machista, racista. Com fiapos restantes encarcera as línguas dentro de bocas já mudas.

Silêncio, por seu lado, é calmaria oceânica preparando para espumar-se em ondas, marés, maremotos, trombas d'água. Silêncio é apartado do tempo, é bordado sobre tracejo de lápis tão nosso. Silêncio é o moroso mover do peito ao respirar; é nele que ao retornar para casa, travessia-noturna, começo a significar leituras, imagens e sons. É nessa solitude que somo aos meus os projetos de mundo de minhas irmãs. 

É no território da troca que, desde as ancestrais, buscamos trabalhar a terra, fazer fundações. O fluir das potências rompe o silenciamento, e o silêncio pode, por fim, ter seu descanso. As feridas históricas são expostas por dentro dos olhos dos opressores, não há escape no fechar das pálpebras, no virar das costas. No entanto, não é daí que esperamos afago. São as pulsões de vida, poéticas-políticas, que dão conta de ser toalha úmida, banhada em sândalo, a nos cicatrizar.

O documentário da mana  Day Rodrigues e de Lucas Ogasawara é justamente uma dessas pulsões. Ressoa e ressalta esses elementos com reverberação de força e beleza. Mas, eu não esperava nada diferente, pois como diz Nenessureal: o bagulho é assim com a gente.

e é mesmo! ♥

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