8.9.16

como sopro.

a efemeridade nos compõe; a vida, óbvia em seu traço limítrofe, clichê na citação, mas, imiscuo pelos-poros: tudo que se desdobra por dentro dela (a vida!): o café e sua quentura fugaz, o cigarro na janela (ou a silhueta junto à fumaça, teu olhar sério dizendo que não ficaria, mas ficou.  tudo isso, até a permanência, é breve), a criança alumbrada com o doce e com meu turbante, o toque fugidio, o bom dia para o porteiro; até as eternas horas de escritório, horas-nadinha, sopro. os dez minutos de sol na praça, o menino que pulou dois encostos de sofá na comedoria do sesc me causando espanto, esse livro que degusto, aospoucos, o torpor causado pela escrita, pelo escritor; minhas músicas preferidas, aquela vergonha, a mesma tristeza, mesmo o ciúmes, e a negação do ciúmes, e o entendimento do ciúmes, tudo parte de uma locomotiva sobre trilhos, onde mesmo os ferros são movediços. uma cadeia enorme de entrelaçamentos; tudo contido naquele frame, naquele filme, na gargalhada das minhas irmãs, no dedilhado dos melhores amigos, na bebedeira, no dobrar de joelhos para dançar numa segunda-feira melancólica; minha oyá sussurrando para oyás tão próximas, tão minhas. o orgasmo, mais pura efemeridade, o cheiro na roupa, a textura nas palmas das mãos, os sonhos partilhados, as lutas, mesmo as de séculos, efêmeras em seu tempo, sobrepostas em tempos outros (nossos passos que vieram de longe, que ainda seguirão em nossos filhos, nossos netos), o gole da cerveja, o ardor da cachaça, o poema que salva o minuto (como disse matilde); o arrebatamento, o esquecimento, a palavra / a imagem, paradoxos pois que eternos, mas são tantas  possibilidades de afetamentos que, cada qual, é brevidade em si. tudo é efêmero, portanto, absurdo, incompreensível, inaceitável; como estar frente ao oceano sabendo de suas margens e, ao tempo mesmo, sua infinitude. é mais do que suportamos. barganhamos com o abstrato um segundo de apreensão, damos nó na ponta do suspiro pra que fique um pouco mais, pra reter sua lembrança. inventamos modos de fazer dos nossos amados lume de estrelas, reverberações sensitivas que ultrapassem o curtíssimo tempo do todo.

Nenhum comentário: