25.9.16

A sociedade dos improdutivos engendra: Potência!

"Esqueleto humano asilo de velhos /
 Hospital de tudo quanto é doença / 
Hospício _
Mundo dos bichos e dos animais" 
[Stela do Patrocínio]

Quando assisti Sangoma também era um domingo, não cinza e frio como esse, mas de semelhante serenidade. Depois de passar pelos cômodos, líquidos e ritos das Capulanas, camadas  se moveram surpreendendo minhas margens. 

Digo isso pois hoje, enquanto era guiada pela voz-presença de Dandara (e o nome já diz tanto!) no breu da sala, na galeria olido, estava dado o afetamento: o novo e a memória, assim, friccionando dentro do mesmo território-eu. 


"o peso do silêncio vai nos afogar"
[Audre Lorde]

Quando assisti Sangoma, foi preciso colocar na palavra para desfazer o nó, para tirar a ardência do choro. Relendo o texto, facilmente começaria do mesmo modo: tem dor que emudece a gente! E, ainda assim, é preciso pôr voz.

Não quero trazer minúcias que podem desfazer o afetamento futuro da experiência, também não posso falar de técnicas que não possuo, mas posso dizer das sensações diante desses corpos-estilhaços, das lascas de vidro-pele formando cada instante uma imagem: humana, contemporânea e ancestral.

Três corpos iniciais, corpos-humanos-bichos-máquinas entrelaçados, sentindo o chão, sentindo-se. Pés, mãos e peles negras, ali, na diagonal do palco movendo-se morosos e, pouco a pouco, eletrificados, acendidos por algo de dentro que não temos acesso (mas temos!). Quem conhece um pouquinho, de passagem, a história dos manicômios (a história do holocausto brasileiro em Barbacena /MG, por exemplo) reconhece o que estão nos dizendo, o que a esponja na boca e os sons impedidos ( o silenciamento dos que não servem ao capital ) gritam. 

O espaço do palco ganha travessia, ganha dança, ganha toque em nossos corpos que mal se contêm nos banquinhos - mexo & remexo tentando aquietar o inquieto. De um outro lado, sombras somam-se às sombras de cá, multidão, o hino da independência abarca o todo, aumenta nosso engasgue em tempos de conjuntura de mais-e-mais perdas.

Então, um canto d'outros tempos se coloca: sinto o choro na amiga ao lado, sinto o choro-meu.

Os três corpos se multiplicam noutros, as danças se repartem em narrativas múltiplas. Acompanho em olhos turvos e aroma de incenso; deixo o batuque me desterrar pra junto deles: estamos todos irmanados à terra, às dores e ao revide.

É disso que se trata, afinal, em mim: a arte em sua pulsão de poética-política. É deste plano que a Cia Sansacroma parece se comunicar conosco: navalha afiada sim! Mas embebida em óleos de belezas e potências. É daí que emerge (e sempre emergiu, não é?) nossa sobrevivência, nossa reconstrução e nossos quilombos. 




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