15.8.16

retratos: são paulo / vila buarque, 14:40.

ele se curvou ali, doutro lado da rua, na altura dos meus olhos dispersos; como quando me curvo para recolher os fios emaranhados no ralo; como quando a água quente me pinica os pés descalços (fazendo com que eu dê alguns saltinhos estúpidos). ele se curvou enquanto eu lia um texto e segurava o guarda-chuva, enquanto eu voltava do banco, enquanto eu ia almoçar. ele cruzou meu dia, impôs sua presença sem saber das minhas subjetividades, das minhas tristezas miúdas (agora não mais que farelinhos apartados da mesa). 

ele se curvou e parecia prece, entrega, parecia rito, parecia uma lavadeira na beira do rio, mas não era. eram as ranhuras de suas mãos em lenta fricção, esfrega, esfrega, limpa as palmas com a merda de merlot classe média - ui, e rima também - era chorume do centro encorpado pela maré da chuva, esfrega, esfrega, e me sorri, esfrega no meu rosto sua lavança de bueiro. 

os pés inchados - deusas saberão de quê, por quê - fazendo d'um velho adidas, chinelo; os pés confundidos com o piche. solo pronto para o limo, adubaram-se em pulos certeiros no riacho-estrume que desce, corriqueiro, ininterrupto, sem a poesia das gotas pululando em amoreiras.

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