12.7.16

O corte foi um pouco mais profundo que o acidente, eu confesso.

Mas as serrinhas da faca já estavam ali: dentinhos afiados como um daqueles gatinhos que mamãe e vovó encontraram na praça anos atrás, antes de tudo mudar. Estavam ali, acarinhando-me os dedos sem esmalte e sem anéis, mas só era possível ver alguns pontículos de sangue, da desatenção; quando pensei fosse a campainha de casa num agudo ininterrupto e distante. Disso não ficaria nem a lembrança, fui eu mesma que pressionei a lâmina irregular um bocadinho além, a mais, aos fundos, provocando memória. 

Não foi muito maduro, nem muito pensado: apenas estava ali com a ferramenta exata para minha apatia. Resolvi fazer uso. A surpresa veio no lampejo de cenas dos meus treze anos: alcançaram-me os olhos num galope único – ferradura no meio da cara – quando dos tantos cortes e ranhuras: aquela tarde quente, a testa cicatrizando o ferimento vertical, a imagem ainda vívida de Alexandre do outro lado da viela, me apontando e rindo, debochado. Eu, humilhada, apaixonada, medíocre, agradecida por ter existência em seu escárnio.

O corte foi um pouco mais profundo, mas nem tanto. Não o bastante para que, novamente, me levassem correndo à psicóloga da escola, ao padre do bairro: pra quê, por quê? Tantas perguntas para escutas moucas, três pai nossos, ave marias, freud e a nossa parte está feita: o que é que essa menina tem, afinal? Demos de tudo: o tudo cabe na medida exata de uma adoção: o amor maior que o sangue, roupa lavada, comida na mesa, os joelhos sangrando entre pedras e o armário da sala, o varal arrebentado nas coxas, a solidão absurda do quarto, a idealização: o porvir, o não-ser.  

Já faz tantos anos e tudo mudou: vovô em sua cova, vovó ternurenta em dores e lacunas, papai rolando na grama com os cachorros e minha mãe, minha mãe, reflexo de tantos rostos nas facas e espelhos que me açoitaram, minha mãe e tudo o que mudou, minha mãe e seu câncer, minha mãe e o engendramento doloroso de um amor mais sereno, construção de fundamento ainda movediço, minha mãe neste dedo em riste, nesta circularidade, no impulso que ainda me acomete no segredo da dor, na faca e suas serrinhas, naquele que me despe e me rejeita, no que me cambaleia até a porta, na campainha que nunca é minha, no telefone, nas confissões, no outro que sou eu mesma, num rosto que me diz tudo, mas nunca me é familiar.

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