25.7.16

não tem saída fácil ser mulher. se você não se posiciona é problema, se você se posiciona também é. mesmo se estiver se fortalecendo, mesmo se finalmente romper com o ciclo pré-programado: é na sua porta que sempre chega a conta: a do camarada e a do canalha. não tem saída fácil ser mulher, às vezes parece não ter certo ou errado, tudo é apenas custoso: você tá lá, entre pedras imensas demais, rochosas demais, tenta manter-se sozinha sobre a corda, que pende para um lado e outro mostrando o indubitável abismo, imóvel, todinho pra você. não tem saída fácil ser mulher, se sentir bem é também se sentir mal por se sentir bem, é preciso, pedagogicamente, ensinar ao corpo que o normal é o sentimento manso e não os grilhões, não a violência constante. não tem saída fácil ser mulher, não basta ter a consciência de que se tomou uma melhor decisão. não é o bastante ser cuidadosa ou dura. tantas vezes o problema é apenas ser.

não é fácil ser mulher e menos ainda mulher negra: a do quartinhos dos fundos ou do trabalho, mas nunca do afeto; a das agressões e mortes comumente ignoradas. é preciso arrancar da memória do dorso, a curvatura que aguarda chibata. é preciso repetir diariamente que nem tudo é para o outro, que o primeiro pedaço, seja do que for, é somente para você. não tem saída fácil ser mulher, a cabeça segue em busca infinda para significar minúcias, a palavra não dita, a curva da retórica pedante, o excesso do outro que, de alguma maneira, sempre transborda no espaço que é teu, e que você acolhe, tornando tua, a enxaqueca; virando tua, a histeria.

não tem saída fácil e, às vezes, nem saída tem. 

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