22.6.16

.óleos, ritos & manhãs.

"rituais a que a manhã obriga. "
[ondjaki, dentro de mim faz sul]


girar: movimento de dois dedos: simples e apressado mover da tampa plástica.

o aroma de amêndoa afaga-lhe as penugens. sorri com vagar. não há alquimia alguma nisso, apenas o cotidiano em seus ritos minuciosos. a manhã e seus líquidos. Joana escolhe a canção exata para o procedimento; valsa na ponta dos pés até o banheiro, como o piso gélido não pudesse alcançar a longitude do corpo se ela não lhe oferecesse o solado inteiro. repousa frasco e tampa na pia.

ébria, encara as cores do dia: visitas luminosas trespassando o vitrô. reflexo turvo: borrão de lápis coabitando com restos da pasta-de-dentes: respingos de espelho. cotidiano. abre a torneira com exagero, deixa vir a enxurrada; embebe os dedos com frescor, sussurros esparsos desprendem-se das papilas, acompanha a sonoridade, fecha os olhos, fibrila, finca as unhas, irregulares, nas palmas - breve junção: pulsão de vida & alguma dor. os olhos, imersos na penumbra de si, parecem sentir a respiração entrecortada. despreguiça as pálpebras. segue. 

recupera o frasco com a mão valsante. não há alquimia nenhuma nisso. no entanto, sabe das magias imiscuídas nos gestos: desfazer o laço, permitir que os fios crespos perscrutem sua liberdade: tingem, com volume, a silhueta do rosto.  o relógio não se interrompe. outro álbum começa a tocar e é preciso voltar àquela canção: ponta-dos-pés, banheiro-quarto-banheiro, agitação e morosidade, assim, tudo juntinho. o espargir desengonçado do óleo na palma trêmula, a outra busca impedir que o liquido se perca pelas frestas, o aroma dulcíssimo faz-se o todo, o afago das mãos nos fios, que quase ronronam ao retomarem o brilho emprestado do óleo.

o ponteiro incansável. cotidiano. a manhã, ardendo sua íntima claridade, arrasta Joana para os aforas do apartamento. 

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