26.6.16

a gente acredita que pode conter tudo na palavra.

começo assim o terceiro rascunho da carta que não te enviei. termino a frase com a caneta trêmula, como escapasse pela tinta qualquer riso irônico: acreditamos...? eu sei e retorno à perturbação silenciosa da sala. veja, eu que raramente ocupo outro cômodo fora os limites do quarto. 

há tanto para lhe dizer, mas talvez fosse só possível no tato, na sobriedade das manhãs de domingo, quando a névoa cobre os topos dos prédios, o topo de mim. você estaria ali, intimidade bruta de quem partilha guimbas e cafés amargos, ainda sonhando, com serenidade tamanha que despertaria os cantos dos meus desassossegos. eu lutaria, saiba, com a tranquilidade que cabe às pontas dos dedos: deixaria-os ir, segredados, percorrer as texturas dos teus cabelos,  relembraria o mover às falanges, que preguiçosas, deslizariam por sua nuca quente - ainda da noite, ainda do travesseiro. talvez teu corpo falasse manso, sem chegar a um despertamento, compreendendo as minúcias da minha angústia, ouvindo atentamente as confissões. então, depois da despedida, outras cartas seriam possíveis: quiça um postal com fotografia própria, versos da nossa poeta favorita, trechos de canções sussurradas entre o teu violão e o meu desafino. talvez a palavra contenha tudo depois do toque.

no entanto, a realidade se impõe em suas distâncias e sigo na sala entre ficções. guardo-te, muda, mais um inacabado.

entrego o corpo ao cotidiano: esquento a água, o limão, ralo o gengibre, mergulho o metal da colher de sopa por entre o favo de mel. Como é dia, as abelhas anunciam sua chegada; de início, tímidas, uma-duas pelo vitrô turvo de poeira, mas logo distraio-me e bailam em bando pela cozinha. causam encantamento e pavor. não fujo. alcanço a peneira e a caneca, derramo lentamento o chá, sinto seus corpúsculos emaranhados em mim.

eu sinto. eu sinto. percebe como são ordinárias e apolíticas algumas de nossas carências? as abelhas não me ferem, junto com o aroma que se dispersa, abandonam o recinto atrás d'outros perfumes.

eu sinto. eu sinto. deixo o líquido reavivar-me os adentros. eu sinto e já é possível balbuciar coisa qualquer, parece sopro encorpado com letras, balbucio e embrulho rapidamente. te dedico num envelope rasurado antes quê.

aguardo, hora a hora, o abrir metalico dos correios.

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