2.5.16

retratos: são paulo / estação st. cecília, 14h30.

o cheiro de talco invade mais que as frestas. é possível, sem qualquer esforço das narinas, aspirá-lo pela escadaria do prédio. as partículas imiscuem-se pelos fiapos do velho sofá, formam desenhos de neve sobre o tecido felpudo. o sorriso, costumeiro, ocupa seu rosto com serenidade quando o sol tropical pousa sobre a sala. percorre-lhe certo deslocamento subjetivo-geográfico: estar aqui e em qualquer lugar do leste europeu, sabeselá. 

o odor alergênico é evidente, deixa-se existir exposto a quem deseja adentrar a residência. ela não se importa. não mais. nessa idade pode desfrutar de certo desleixo - senilidade...voltemeia ouvia os risinhos carinhosos das netas na cozinha, não ralhava, sentia o afago estranho de voltar a ser criança -  os demais que se acostumem (e que se danem, afinal.).  

os cômodos, hoje, estão silenciosos, nem as fotografias impuseram sua presença de memória ruidosa. acarinha os calos da mão direita com o único anel da mão esquerda. não lhe disseram das políticas, moça boa, moça pra casar, lembra-se. sempre achou tudo isso meio ridículo, mas cumpriu, passo a passo. os dois calos, gêmeos, vinham do excesso de costura, sempre à mão, para enganar a languidez dos ponteiros. uma vida toda cerzindo os fundilhos de alfredo. detém o riso. intromissão de lembrança rigorosamente afastada.

excede no pó de arroz, gosta. procura o colar meio às quinquilharias. a breve careta denuncia que o café já está frio. duas giradas na fechadura de baixo, mais duas na de cima.


Metrô Santa Cecília / SP, 2016.

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