9.5.16

os dentes: imensos.

no entanto, ninguém se mostrou surpreso com a desproporção. os trinta-e-dois tornados metade. ainda assim, nada deslocados. ocupavam a boca de modo estranhamente comum. nada em sua distribuição fazia-me figura curiosa, permaneci com rosto banal, passante.  

ocorreu que dado momento um dente amoleceu e houve pequeno espanto. breve. o terror completo se instaurou mais tarde, quando da gengiva inteiramente amolecida. foi possível sentir o samba molenga da dentição buscando manter equilíbrio num sanguinho, feito riacho, dentro da boca. 

eu-corpo-realidade deitadinha transversalmente no colchão sem lençol. dorme tranquila, a menina. finalmente dorme. diriam. nada denunciava o pesadelo. apenas observador muito sensível e íntimo saberia daquela linha de expressão acentuando-se rente à raiz dos cabelos. talvez me acarinhasse com a leveza que não desperta, mas bota serenidade onde é desassossego. talvez.

eu-corpo-subjetividade parada meio a sala qualquer. engolida na matéria própria do desespero. taciturna. fiz do dedo indicador alavanca para desencaixar os outros-poucos dentes da gengiva fluida, um-por-um. repulsa sensação de quebrar ao meio um biscoito cracker. 

corpo-realidade-corpo-subjetividade encontram-se em território nulo onde as sinestesias se dão. é chegada a hora, quase, mais um dente, mais um minuto, os sulcos formados tão fundos quanto os fundos do meu medo.

é domingo e, eu sei, o despertador não vai soar.

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