30.5.16

as 33 badaladas d'um relógio distante anunciam:

 palavra mimetiza poética
pra ser possível 
narrar feridas



é chegada a hora!

as cortinas abrem-se num ligeiro mover majestoso,
método exato para boquiabrir-se o público:

valei-me, multidão!

o açougue como espetáculo, ora-ora!
quem diria fosse tão lucrativo
ganchos e fragmentos indefiníveis de carne.

tem nome não,
mas,  gênero
sempre tem

e o que tornado-feminino
tem culpa também

mas,
não nos encarreguemos disso,
senhores

o que tá posto
[histórico-patriarcado]
legitimado-está!

avistemos tão somente os ponteiros:
é hora de rodar as peças
escolher os cortes
pôr chama
&
a-guardar

[vejam aqui:
- a novinha
- a da sainha
- a da festinha
- a mulata
- a do morro
- a da esquina
- a que foi comprar leite
- a que chegou do trabalho
- a que está lavando a louça
- a que é jovem demais
- a que é velha demais
- a de todo dia
- a que atravessou]

é hora [e sempre é]
de lamber os beiços,
avançar ao palco,
abocanhar
o que puder
.
são instintos, mocinhas!
entoamos com toda
nossa protuberante
inteligência,

e o público-réplica
engasga,
mas não perde o riso.

emitimos sons
humanos demais,
medíocres demais,
cruel-in- essência,

e o público-réplica
ri-se
outra
e
outra
e
outra
e
outra
e
outra
e

distraídos
não ouvimos
os passos que se ajuntam,
as vozes que se achegam,
as carnes reavendo
seus corpos.

inebriados por
galhofa certeza,
é com espanto torpe
que assistimos a
chegada de mil-
retinas-lanças.

é pela frente,
é cara-a-cara,
empunhadas de
nome,
sobrenome,
e, sobretudo,
memória!

[mocinhos, mocinhos, não esqueceremos!]

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