3.5.16

a memória do filho se encarregará

"eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frentes 
nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, 
onde quer que elas apareçam para me destruir. 
e quando elas aparecem para me destruir, 
não demorará muito a aparecerem para destruir você"

[Audre Lorde / negra, mãe, lésbica (como Luana) 
escritora, ativista dos direitos civis ]





do café da manhã terá guardado na língua o sabor ainda quente 
da manteiga derretida sobre o pão? 

do almoço terá o gosto do suco? 

da tarde terá o riso, 
o conselho, 
o sol cobrindo o asfalto,
o último timbre, 
talvez desencontros 
com a mãe? 

da noite anterior se alembrará qual sonho? 

 Luana Barbosa dos Reis

a memória do filho se encarregará
de pôr às nossas mãos

- trêmulas com a multiplicidade
de corpos - 

mais um nome para a luta.

Luana Barbosa dos Reis

a memória do filho
registro taciturno

Luana Barbosa dos Reis

a memória do filho
memória histórica
de nós

Luana Barbosa dos Reis

a memória do filho
elegia de sal
não televisionada

Luana Barbosa dos Reis

a memória-carne
a memória-escara
a memória-escárnio-veste-fardas

Luana Barbosa dos Reis

a memória-agride
assiste a si mesma
na dor

de novo e
de novo e
de novo e.

Luana Barbosa dos Reis

memória expurgada
revide
que vem

Luana Barbosa dos Reis

não esqueceremos
a memória resiste

não esqueceremos
a memória reitera

não esqueceremos
a memória espelhada
em teu filho

Luana Barbosa dos Reis

cada-útero
repousa
um punhal

09 de abril de 2016

tinha sido dia quente.
a toalha da noite se estendia
sobre às mesas.
terminava ou começava
alguma novela
na televisão da vizinha.
na memória 
o breve fechar do portão.

09 de abril de 2016

um dia comum
como tantos
e, como todos,
um a menos
para mais uma
mulher
preta.




-

* útero como símbolo poético-político. importante dizer.

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