8.4.16

retratos: são paulo / estação marechal, 9h00.

"enquanto tu assiste tua novela tão matando outro preto"
[elisa fernandes]

"aos 21 anos de idade, quando há o pico
das chances de uma pessoa sofrer homicídio no Brasil, 
pretos e pardos possuem 147% a mais
de chances de ser vitimados por homicídios"
[atlas da violência / ipea, 2016]


por distração na leitura o quadril assume a cabine e faz-se passar pela catraca do metrô. ligeiro alvoroço do lado direito.  desperto para o afora, há este tom choroso infiltrando-se ouvidos adentro. esquadrinho figura que dê contorno ao som, adivinha-adivinhança, rapidamente encontro os guardinhas mimetizando totem frente ao elemento. o chamado esvai-se pelo vão dos joelhos fardados: mas seu guarda.... são só chocolates...

um rosto finalmente é apresentado: rosto preto, seus rostos sempre pretos. o suor pulula qual fosse ele mesmo pele: gotas pousadas no olhar infantil, deslocado, meio aos sulcos; gotas misturadas ao cuspe de quem deseja, mas não logra, compor frase completa. suspiro-longo, sabe que não há possíveis argumentos.

da estação marechal aos condomínios de higienópolis, baixo as folhagens da pracinha às largas ruas de patriarca: corpos pretos, tantas vezes corpos solitários numa ciranda de três, quatro polícias. eu, corpo preto gênero oposto, permeio essas situações sem saber quê. impotência subjugada por sorrisinhos de escárnio.

a vida absurda galopeia em seu fluxo. gregários, qual bons-irmãos-bons-camaradas, acompanhamo-nos escadas-rolantes abaixo. turba desconhecida confraternizada pela capital, sorvida em gole-seco pelo recheio outro do significante: bufão que aguarda batida anímica dos cartões-de-ponto.

inquietos e arrebanhados, também nós, esperamos. a tensão é táctil, sonora. a dúvida é evidente, no entanto, somos demasiado covardes para dar-lhe vazão. povoados por timbre de repetição mecânica não sabemos se será engrenagem do trem fazendo curva ou o eco navalhado de antigas correntes. 

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