6.4.16

.retrato: shopping light, centro / são paulo, 15h30.

o prenúncio da queda é tão goticular que beira o inexistente. passo em falso, degrau de engenharia estúpida. esse pensamento toma joana ao tempo do susto quando após ligeiro sorrir à senhora adentrando o shopping, mais sacolas que braços, assiste sua queda: lenta inclinação do corpo, a bochecha selando pacto não desejado com o piso frio.

o circo está armado: segurança dando palmadinhas num intento vago de despertamento, faz-lhe almofadinha ajeitando os longos dedos sob a cabeça imóvel; à nuca de joana, o falatório: que é preciso..., mas ele vai ficar ali...?, e ninguém chama o samu, mas isso dá um processo daqueles... - bombeiros, curiosos, a maca, a procissão. tão repentino, tão comum. o desajeito é imediato e geral. joana não se atreve cruzar olhares, resume-se à observância.

a moça da limpeza, cujo trajeto havia sido interrompido para que pudesse ocupar, momentaneamente, a categoria de espectadores, ajeita o carrinho-balde há alguns azulejos de distância, retira o celular do bolso, reposiciona os fones, volta a guardá-lo entre a pele e o sutiã. sustenta o esfregão com mãos automáticas. a calmaria e precisão de seus gestos dispensam a necessidade de botar olhos nas ferramentas: levanta o cabo, mergulha os cabelos de tecido na água turva, torce no compartimento ao lado, flexiona o andar.

joana acompanha o baile da moça da limpeza permeada pela imagem da senhora e seu declínio: no combate rotina versus imponderável, mais uma vez, o acaso levou o cinturão. a memória, apressada, faz-se tautológica: a breve troca de sorrisos e, logo, apenas o rosto oco ao lado da banca de sorvetes.

o ritmo da galeria irmanado ao da cidade lá fora; quentura urgente - pra quê? pra quem? - a moça da limpeza e joana partilham, sem comungar, d'um tempo-espaço muito próprio sintetizado em tecido, água, desinfetante, no vagar arrastado do utensílio: pausa, mais uns passos, pausa, encharcamento de balde e de piso, pausa, não falta muito...

sê atento...é isso que a paridade silenciosa entoa...olha e vê...quase... quase se faz possível, bastam mais algumas passadelas e já teremos refletido o assombro-nenhum do cotidiano.

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