4.4.16

Fragmentos: As Pequenas Mortes

" Um homem precisa ter com o que morrer. Eu morro com o amor, sempre que posso. Sempre que me entojo da pedagogia de estar só, sempre que rasgo o espelho que palavras de mãe enrolaram em meus olhos dela" [p.26]

"(...) cada eixo de mim sonha com um silêncio virado para um lado diverso do silêncio anterior" [p.27]

"Goiânia é uma espécie de tumor, dela irradiam muitas outras cidades, e seus limites se tornam cada vez mais móveis, e a cidade vai se abrindo, híbrida, multiforme, cada vez mais feia, cada vez mais eficaz na captura do afeto daqueles que a respiram. O ar quase sempre muito seco, em julho, agosto, setembro, outubro, quase a mesma sequidão do Atacama. Agosto setembro outubro é, de fato, aconselhável, para quem puder, deixar Goiânia, ir para o Atacama.

Ah, sim, as praças, Goiânia tem muitas praças. E as praças têm flores. A obsessão por flores desde que um prefeito quis tirar Goiânia de sua desidentidade: A CIDADE DAS FLORES. Entanto, Goiânia não é cidade das flores, Goiânia não é. Basta olhá-la da curva a lá-goiânia, na BR-153, e já se vê: um rizoma concentrado, um rizominha, um rizomúnculo. Entra-se na cidade e: um rizoma um tanto quanto organizado, um inferno de motos, motos à direita esquerda, na diagonal vertical: motos. E carros, muitos carros importados, poucos carros muito velhos - olhando-se unicamente para os carros, excluindo todo os resto, pensando estar em Viena.

A cidade de Goiânia está no chamado coração do Brasil, ou cu do mundo, ou cu do coração do mundo, ou coração do cu do mundo (mais uma vez: a história do olho, Bataille) - que ótimas metáforas para essência, não? Em torno, outras cidades, microalgumas. Vista de fora, para quem se aproxima, a cidade já se mostra como é: desidêntica a si mesma, sem caráter, um estilo sem estilo - macunaíma, digo, para provar que abracei mesmo a literatura em minha vida. Uma cidade pequena e grande, células sutilmente, muito sutilmente tendendo a um futuro, a um longínquo futuro cosmopolita, agora é uma cidade em caracol dobrada para dentro de seu dentro tão externo, mosaico de interiores de outras cidades também entulhadas de interiores de outras cigades." [p.37-38]

"A memória. Punhado de agulhas costurando a carne cinzazulada do cérebro e, quanto mais azulado, mais modorrenta, mais infernal, mais persistente a grafia das unhas enfiadas no crânio. Então que, como uma máquina giratória, de exatas junturas articuladas em movimentos sincrônicos, e a dor diacrônica, irradiando do núcleo-passado, perfurando o presente, diluindo o futuro, então que, como uma máquina giratória, aquela uma e mesma imagem que se repete, sempre a mesma, sempre outra, sempre um pouco mais rasurada nos pontos mais macios, sempre mais nítida nos pontos mais farpados - ou o inverso. Sempre a mesma cena: a filha em seus 6 anos, a farinha entre dentinhos azuis-ensanguentados, o pai dizendo, "No claro não se vê, é uma beleza que só se vê no escuro". Que nem mágica, só que de verdade. E é então que entre dormindo entre acordada a noite se farpa até os dentes, a sinfonia cega de vitupérios, o sol gelado do cemitério, a imagem da filha nua-esburacada, o caixão de chumbo alvejado por lascas de vruz, palavras-cuspe caindo no ouvido e que não param de açoitar. E é assim até de vez a mãe acordar para um pesadelo pior: a mesma atmosfera lenta e pesada, só que é de verdade" [p.44-45]

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Wesley Peres, 2013

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