4.4.16

eu tenho vinte e oito anos e recuso o convite da morte

"espera-se o fim
de vinte e oito
em
vinte e oito dias"
[paula tavares, ritos de passagem]


jorro, a imagem do vômito aniversariando-me, veio assim, inevitável. eu não queria escutar, muito menos repetir. pensei: colocar no plano do audível, ou da palavra escrita, seria dar dimensão real aos meus fantasmas adormecidos e serenos. elaborei modos de afastar a presença bem rapidinho. sem sucesso: rondou-me e ronda-me, persiste, qual amanhecer invadindo o quarto sem cortinas e, também conforme os despertares, resisto, teimo, imiscuo-me travesseiro-colchão para, por fim, ceder-lhe movimento e dança. 

frase & sua potência, frase & sua evocação - imaginária, mas não falsa. - percorrem-me corpo, medos, silêncios, a boca sensível, os sonhos, seus símbolos - literários e tristes - esse círculo chafurdado, santificado, profanado e, ainda assim, um lugar. mesmo quando o desterro é óbvio, corpóreo, metafísico. parece-me que vestígios do lamaçal aderiram-se tal forma que sempre retornarei ao rito tautológico, ainda que só fragmentos, ainda que de outra posição - como dizíamos ontem, com outra força, menor, espero, menos devastadora e faminta.

eu recuso o cortejo fúnebre e suas elegias, melodia, mansidão!

encaro as carpideiras por dentro dos olhos secos, elas entendem que vejo o afeto inventado a que se propõem, não questionam ou se afugentam, apenas iniciam um retorno fatigado: fecham os portões, guardam seus pañuelos, flanam: reparo, seus vestidos não chegam a beijar os chãos. não posso evitar que essa imagem me comova, sinto o ímpeto de convocá-las, fazer-lhes carinhos, servir o café. me mantenho firme, sejaláoquê, ignoro a tremulação nas narinas, é preciso estar, fincar, não render-se à dóceis enquadramentos. a eles; fotografia.  

eu tenho vinte e oito anos e recuso o convite da morte, repito, cochicho para me convencer, pra ser feitiço de vida, deixo a frase ganhar seu espaço, entremear-me saliva-e-língua, possuo-a, reverto-a, expulso-a, no entanto, permito seu tentacular fascínio afagar-me os cabelos. 

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