30.3.16

.retratos: santo antônio do pinhal / páscoa

a mão fricciona a bengala improvisada: pedaço de cano pvc atado a um galho, firme, encontrado nos arredores do sítio. no pulso, plásticos coloridos mimetizam cristais quaisquer auxiliados pelas lambidas d'um sol tímido.

maria de lourdes, nome registrado por promessa, conta-me, uma vez mais, como a mãe se desesperou com a filha esmorecida nos seus braços adultos, indo de crendice em crendice, mas, foi a santa mesmo que deu jeito nos febrões. escuto com amor, acompanho a dança sutil dos fios grossos, branquíssimos, que oferecem beleza d'um lugar outro. digo-lhe: vó, como você é linda! reage com caretinha desguiando num meneio pueril. quero cantar em seu nome, fazer oito serenatas para suas oito décadas, a melodia flutua-me poros adentro. cá fora, permaneço emudecida.

deixo-me ir em seu olhar navegante, faceiro de ternuras, teimosias e alguma tristeza, alguma saudade. minha avó carrega toda infância em seu regaço. há algo de ópio no aroma de colônia barata, doce, etílica.

 houvesse uma irmã a partilhar estes instantes, é este o cheiro que lhe daria.


Santo Antonio do Pinhal, 2016


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