24.3.16

.onírico.


"qual rio salgando o seu corpo no mar – vou na tua voz
eu, rio, a onda querendo chegar – e tu minha foz" 
Aline Frazão



a cicatriz profunda percorre a coluna de ponta a outra, espada segredada sob a pele. destes saberes de sonhos: tu não sabes que sei, eu não sei como vim a saber. 

minha pele é de temperatura elevada, noto na exclamação daqueles que me acolhem em braços. simples aperto de mão é troca amornada. quero dizer-lhe isso no tato, mas não me atrevo ao toque. seguimos num sem fim de rostos familiares. nessa morosidade afetiva aproximamo-nos e perdemo-nos até alcançar o quarto aos pés de uma escadaria. as retinas buscam adaptar-se a forte escuridão azul-acinzentada, sendo possível vislumbrar, com alguma nitidez, apenas as cortinas do terraço. pra lá dos olhos, no entanto, a certeza da paisagem dúbia: a cidade, bruta, urbana; a cegueira branca, arenosa, donde brotam estes odores de maresia. 

os sonhos não respeitam tempo, dão-nos o fluir da valsa, instantes para recolhermos um punhado de lembranças, e logo querem compensar o que nem relógio é - como estivéssemos submetidos, também ali, ao tempo do capital e suas efemeridades - corrompem o degustar da cena, submetem-nos a elipses e falhas de continuidade. entregam-nos displicentes planos fragmentados: nós frente aos degraus absorvendo o entorno, a flexão do teu sorriso no canto do meu olho esquerdo, eu sozinha, eu ao lado da cama, tu, deitado e manso, a camisa aquecendo os ombros da poltrona, a imagem de tua cicatriz-espada refletindo o teto. 

há certeza em meu desejo: deitar corpo em pele, e só, sobre teu dorso, repousar qual lenço úmido no ofício da compressa. é óbvia a minha aproximação, sussurras um canto inaudível ao tempo mesmo em que não logras fazer evitar o sobressalto, detém-me o toque, a rejeição é dada. não compreendo esta mão que ainda chama, vejo-a na sombra entre uma lágrima frouxa e nossos lençóis. nossos? percebe? há essa sensação. talvez porque o nosso é dado onde depositamos o nós. nós? 

tu não escondes os relevos da tua ferida - e a pergunta insiste: quando, como? - permaneço às margens da cama, tua mão me convocando na imposição da distância. a gastrite, que ontem tomou-me o dia, adentra a subjetividade numa outra forma de dor - algo entre o estômago e esse território que atribuímos ao coração - os sonhos tem um tempo muito próprio mesmo, é eterno e nadinha, quase frame esquecido, ainda que, tão, tão ressonante. 

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