14.2.16

era, afinal, dos besouros que eu queria lhe falar.

Para Yane Santiago

"Salve besouro mangangá"


Frase inquieta na garganta, a escrita presa nas inervações, nas falanges - essa tendinite é história não partilhada, doutor... - faltavam modos de pôr palavra no discurso.

A tarde começava a deitar-se quente demais. Havia dificuldade em articular diálogo que exigisse aprofundamento das subjetivações, no entanto, eu ali, circundando meu irmão alheio às presenças da casa: os dedos formando lonjuras que lentas tecem valsas sobre as cordas do violão. Como Manoel, eu não quero perturbar a sua paz, não digo nada, não lhe alcanço o braço num afago, mas sigo rodeando feito mosca em borda de refrigerante - será que você ainda se lembra daquela vez, daquela praia...por que será que papai e mamãe pareciam dispor de uma felicidade meio abobalhada que não chegava a nos convencer? -  desisto. Me esparramo, gozo o frescor dos azulejos, vejo os pelos dos gatos no reflexo do dia, quase não me importo com a alergia ou com esse silêncio ansiogênico de domingo -  ele, às vezes, sobrepõe-se à canção, meu querido - quase.

Foi ontem, logo amanheceu, Alfredo. Finalmente balbucio num sussurro, deixo a oralidade retomar a língua. O café amargo compunha o fim das férias: gole, outro, as glândulas sensíveis à temperatura. havia um imenso prazer nessa comunhão de alvorada, cafeína e corpo. surpresa. Próximo ao gole derradeiro senti que atravessava-me o canino esquerdo; sua textura, seu sabor simultâneo à minha náusea. Era de estar avisada sobre coisa qualquer, não? - devolve-me um resmungo singelo, não se distrai dos minuciosos acordes - atravessei as horas agitada com esse encontro mínimo e, bem sei, você debocharia que talvez tivesse sido o caso de deixar na conta do esquecimento. Ah, meu irmão...Por um instante a poeira da desmemória chegou a acarinhar-me, mas, na madrugada, quando os símbolos exacerbam sua existência fragmentada, imiscuído no meu doce tão doce quanto lembranças de férias pueris - quando segurávamos rabos de lagartixas na casa de vovó - meio a esses dentes ainda carregados da visita matinal, invadiu-me outro corpúsculo, de amargor mais acentuado, esqueleto rijo, uma crocância que só a noite parece capaz de trazer. O vômito não me rebentou evitado pela cachaça; fermentação de cadáveres sobrepostos em minha boca. Sei, também, que parece exagero juvenil, que o verão arrasta aos nossos pratos esses bichanos famintos, ainda assim, havia um curva indecifrável, algo me ressoava em mandingas, algo entoava ritos e, eu não sei, eu não sei como elaborar significados. Claudico entre evocações, transmutações, esse povoamento, animália, bestiário, sentir-me gregária a quê? E nem a cachaça e nem o cigarro e nem essa confissão, percebo agora, nem ela é capaz de dar conta d'alguma semiótica. Aqui do chão você é só um contorno perfeito. A claridade é tanta....

Retorno à mudez. Zumzumzum de mosquitos ricocheteando em nossas peles. Olho com amor para Alfredo. Recolho estes retalhos: palavras mal cerzidas, nós dois num monólogo surdo, lusco-fusco, memórias,  um amanhã burocrático-cotidiano, domingo, o velho violão de nosso pai, as cordas, os dedos, longuíssimos, que...param.

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