24.1.16

telúrica.


a aline frazão & agualusa


"meio à deriva, meio louca,
dançar nua na varanda"
[o céu da tua boca] 



observava no beiral da cozinha enfeitiçada pelo riso largado da irmã, a mais velha. não saberia dizer do que lhe ocupava o peito, mas era tão bom deixar-se existindo/assistindo: a pele negra toma de empréstimo os mil olhos d'um caleidoscópio, beijos de chuva inesperada; as pernas desnudas carregam nos poucos panos o próprio baile; farfalham com movimentos graciosos e desajeitados de quem tem de tirar roupa-a-roupa do varal, com certa agilidade, para que o temporal não estrague o trabalho de toda uma manhã. ao tempo mesmo, escorrega pelos azulejos frios e ri-se, ri-se do próprio estabanamento.

a mais nova sorve o acontecimento a goles curtos, ali, silêncio corrompido apenas no burburinho da cafeteira. acompanha a destreza dos pés de sua irmã: as unhas, esmaltadas em laranja óbvio-ensolarado, dão sustentação às solas empoeiradas que formam rascunhos indecifráveis na varanda. quantas estirpes, quantas tradições percorrem essas fibrilações...: fosse lama essa varanda, houvesse sanfona, viola, gaita ou kissange, cervejas derramadas em brindes aos amigos, povoasse seus cabelos-crespos sorrires outros, fosse matéria para além dos desejos e, sabe-se, inventar-se-iam danças próprias, quase alheias ao corpo. não seria, então, só mais um domingo chuvoso, não seria a irmã tentando resgatar calcinhas e jeans surrados dos varais.

a pequena, já meio distraída, alcança a fruteira, mordisca uma maça; não dimensiona toda polifonia imagética e, nesse próprio alheamento, anui o percorrer fluido das pulsões afetivas, lança às águas aquilo que um dia, a seu tempo, ventos outros lhe sussurrarão num rememorar.

Nenhum comentário: