9.1.16

A confissão do acendedor de candeeiros.

"Eu é que ponho luz nas noites.

Eu é que desafio os ventos. Vocês repousam nas lareiras quentes das vossas famílias. Meu tremor na mão é já certo, a velhice me acusa todos dias uma nova pontada nas costas. Estou seco - pelos e veias. Não faz mal: meus olhos inda brilham, minha escada inda me perdoa tonturas de todos anos que eu lhe subi com este carinho teimoso. Eu é que meto medo na escuridão. Meus passos fazem ela recuar velozmente. Eu, o pesadelo do breu, o matador de negrumes! Sou irmão das estrelas, acendo as primas delas aqui na terra. Lá nos céus universais, elas me cumprimentam com brilhos sorridos; ou serão sorrisos brilhantes? Toda estrela é luz bonita que nunca soube descansar de alegrar a noite. Toda noite é palco para estrelas, candeeiros e olhos acontecerem. Eu da velhice tenho respeito; da morte tenho medo nas carícias dela. Mesmo não queria morrer, eu. Assim velho, ia pedir reconstrução de uns candeeiros cambutas, onde eu, a empurrões suaves, um miúdo me ajudasse, pudesse no tempo acender meus candeeiros mais baixos. Eu é que faço esta cidade invadir-se de falsos pirilampos. Minhas mãos afinal dão luzes. Cada candeeiro - uma casinha que nenhuma noite eu posso esquecer de acender e soprar. Essa escada é minha outra perna; sem ela a escuridão me derruba. Mesmo o vento me empurra mas não sabe me sustar. Esses meus candeeiros, cada qual sua janela de vidro, estão muito agasalhados. E a lareira deles, eu é que todos dias, todas noites, reacendo. Essas são minhas mais alegres lareiras - vocês repousam nas lareiras das vossas famílias. Minha via só acontece de noite. Sou muito veloz a percorrer ruas porque minha missão me mete carinho de amor - eu gosto muito d'acender a noite. Esse meu reumatismo me quer enferruja, ser a mancha nos meus prazeres. Eu de noite lhe fujo, de madrugada lhe acolho, de manhã lhe sofro. Velhice é todos dias ir despedindo um pouco coisas que inda nos tocam as paredes do coração. Durante esta minha vida acendi candeeiros pela simples poesia desse gesto, sendo, cada chamada, um poema que eu escrevia para quem passava. Depois, depois do último, acariciava minha escada amiga. A dois, dividíamos um momento de frio: esses que passam olham meus candeeiros? Esses que vão para casa, pras famílias deles, lareiras deles, olham as minhas chamas noturnas? Eu é que ponho luz nas noites, meto medo na escuridão, invento pirilampos na cidade. Fosse crente, julgaria fazer jogo-de-luzes pra deus. Como sou velho, julgo ter sido poeta das luzes, escrevedor das velas, conhecedor das ceras escorridas, quer dizer, artífice das minúsculas luzes amarelas. Minha vida acontece de noite - eu fosse uma chama provisória. Quando olho o céu, lhe vejo assim pintalgado de brilhos, indago-me: e eu, quem me acendeu sempre, enquanto acendi estrelas aqui na terra?

Eu é que sou o velho - todos dias me despeço dos últimos candeeiros que inda me acendem o coração."

[Ondjaki. in: E se amanhã o medo.]

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