8.12.15

.cais, oceanos & faróis.

"eu sou um delírio do amor"
Deolinda


Escrever num repente doido, doído, uma dor que não é mais, mas é, acentuada no amargo quando do cigarro na varanda nova: tão sem você, tão sem eu ainda, varanda emprestada de outras mãos. faço ali morada de paz: observo o baile da névoa-desprendida, sobe lentamente, e vai; a dor fica. Há uma infinitude nesse momento, o oceano me atravessa, mas é só poça nas canaletas, esgoto a céu aberto, como um rio, vai; a dor fica. Escrever num desenfreio, sem me preocupar com deslize de acentuação, deixar a sintaxe livre-de-si, concordar com o desfluxo, o caos, transbordo; mas, a dor fica. No meio da madrugada, quando o exercício não parece mais possível, meus olhos naufragam esquecidos por faróis, escuridão desorientada e trêmula; imagem tão óbvia de quem evoca poética à poesia, é aí que deixo versos ruins existirem, neles, te vejo ir; mas, a dor fica. Permitir certeiro engano: mendigar belezas em palavras que já não tuas, aguardar que os verbos me vistam o corpo, como moscas rodeiam as frutas na cozinha, como o zumbido em tom contínuo tivesse função ansiolítica, ópio, lenitivo até a próxima sessão, deixo as subjetividades serem levadas nesse mar; a dor fica. Escrever, por fim, meu amor, apenas para te convocar entre virgulas, te remeter sem me destinar, regredir nessa linha sem progresso, ser estrangeira, mais uma vez, nas ruínas do teu cais.

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