30.11.15

.eu não sou mais a mesma.

"é uma perda de tempo odiar um espelho"
Audre Lorde



eu não posso ser. depois que atravessei a ponte e um retalho da saia desprendeu-se num prego torto, eu não sou mais a mesma. eu não sou mais um novelo com pontas separadas pelo interno-externo da bola em sua textura macia, o gato já não amola suas unhas pontiagudas em meu dorso, eu não sou mais a mesma, sou um emaranhado de mil pontas doutros tempos desfiado. eu não queria mesmo ser, e foi no limite que houve o rompimento, uma quebra entre aquela & eu e, sei, pareço não dizer nada nessa circularidade, mas há tanto aqui, há tanto na repetição - o que repete quer dizer; e diz -  e na afirmação necessária: eu saltei pra fora da roda. não sendo mais o espelho de ontem, hoje não posso ausentar a fala e as mãos do cuidar de minhas irmãs, não posso dizer que eu não sei, porque eu sou esta e esta sabe por toda ossatura, em cada fenda, raspão, cada quicada do cocuruto nos asfaltos disformes. eu sou esta que não está alienada de seu corpo (ainda que o percurso seja gerúndio de tatear, lentamente, no tempo-meu) e o que me é orgânico vibra com os corpos-outros nas suas subjetividades tantas, e eu não posso me calar, e eu não posso deixar o olhar altivo - medíocre e risível - avançar pelas alas que nunca lhe foram pertencimento, eu não sou mais a mesma, e nem joanas, marias, polianas.   eu não posso mais ser, esta que sou não será estremecida e entremeada por labirintos sem fundação - ainda que sorrindo eu também jogue os dados, o tabuleiro não será mais turvo - eu não sou mais a mesma, eu não posso ser,  e essa que hoje se levanta para o cotidiano, tão repetitivo, não se recolherá quando da piada, do açoite, do escracho.  eu não sou mais aquela, o rosto entre as mãos buscando fuga, eu não sou mais a mesma, e da infinitude de lutas que abarco, e das miríades de silenciamentos que nos punge, hoje quis mastigar a voz de tantas nossas, de territórios-outros, e nada se encontra: mudez imposta pela polifonia majoritária.  mas, ainda bem que eu não sou mais a mesma, e essa que hoje sou não pode mais ser inerte, deixar serenar o abismo com escritoras que não nos alcançam. essa que sou, quer trespassar o palavrear sanguíneo - que corre, permeia & pulsa - de Momplé, Chiziane, Tavares (saber-me nestas Áfricas)...porque eu não sou mais a mesma, e mesmo aquela dantes era já um eu múltiplo, e este sujeito que é um nós cada vez mais povoado, não se contenta com sussurro na varanda.

nosso canto, nossa luta, nossa literatura retumbará tambores.

porque eu não sou mais a mesma.

e nem vocês.

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