26.11.15

canto de despedida

Se eu calo as canções, e deixo livre os sons, é o farfalhar das árvores da Caetano de Campos ocupada que me alcança. Os topinhos alaranjados banhando-se do sol que começa a ensaiar despedidas, as pontinhas secas como dedos que escapam pelas folhagens dançantes e recheadas; um respiro meio aos prédios-tantos, ao centro caótico, vivo e, por vezes, excessivo. Ainda posso ouvir o riso das maritacas e um piar que desconheço, os telhadinhos marrons acalantam como um lugar fora desse espaço; fosse sempre um sábado de manhã, fosse sempre o café coado na lentidão que a tarefa pede. Se eu calo os olhos, e deixo as retinas livres, vejo o colorir dos ventos nos varais dobráveis, pequenos mecanismos que brotam das janelinhas dos banheiros alheios: vizinhos que rostos nunca sorrirei (ou não saberei sorridos), mas sei de suas luzes e televisores, sei de suas blusas e suas insônias. Se eu calo o entardecer, e deixo o dia ser um horário qualquer, é assim que a despedida se achega: beija estes trinta metros que foram o primeiro teto a ser lar, acarinha as feridas que aqui puderam ser transformação; cada gaveta, cada caneca e cada roupa já dividida pelos saquinhos, cada qual no meu cada onde, cada fragmento escorrendo fácil como quem sussurra: vá, e deixa ser de belezas a mudança.

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