5.11.15

[]

 "a música já havia chegado com a sua força de água / 
inundando tudo o que poderia ser seco"
| Tiganá Santana in. Ensaio. |


Daí pra frente: tudo liquidez. Afetos que atravessam dedos tão nossos, como as gotas trespassam tetos, múltiplos, fluidos. Daí pra frente cantar bom dia como quem acerta um acorde raro [como quem já sente, no descolar das pálpebras, o derramar da cafeteira na caneca preferida] deixar a toada úmida tomar conta dos burburinhos que maritacas, aquelas mesmas, ainda empoleiradas sem saber direito quê - a cidade deixa a gente meio torpe, cê sabe. Daí pra frente tudo fica entre trombas d'água e calmaria ressabiada, diz que não veio serenar - mar calmo só pode ser anunciação de trovoada - era assim que a vó rebatia nossos festejos para a vastidão sem ondas, lembra? os pés chafurdando na areia molhada, a gente não sabia de sinais não, queria só o vento salgado como beijo nos lábios trincados - tem que bebê mais água, menina! - da margem espiávamos o fumo da vizinha: brasa na porta d'uma madeira tão clariii...nha, rebatia e ardia, que mais que rima tonta, era um alumiar todo adentrando nossos olhos já espremidos do sol, da areia, lentidão de [a]mares. eu ainda lembro. Daí pra frente nada poderia mesmo ser seco; toda música, toda força, todo naufrágio haveria de se enredar à nostalgia de memórias inventadas.

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