17.11.15

.atrás da foto: um parágrafo com teu nome.

Para O.


se eu te faço poesia, é só engano de nota insistente. dedos longos na lonjura do piano, incidindo como ondas aos pés do mar. se eu te desfaço enredando noutros nós, é pelo sorriso capturado em frame tosco, numa filmagem antiga e caseira, que dá o formato e força deste enlaço. se eu te canto num agudo inaudível, é da sereia a narrativa fundo em nós, é dela o timbre que me escapa; mas, não lhe entrego nada disso, deixo o engodo ser encanto. se te repito no fechar das pálpebras; se pisco repetidas vezes, até certa náusea, as fotografias ganham movimento. como numa animação em teste, atravessas trôpego o além-mar de nossas distâncias, quebra-se o cansaço das deshoras que correm sempre a frente, sempre duas-horas-adiante. então, eu não mais cá trás inventando desenganos, não mais assobiando canções roucas - tantas moedas gastas na jukebox do boteco; lugarejo onde dividimos cervejas em par sem tua presença. o encontro seria de surpresa, numa esquina - que o clichê nos pede uma - junto ao poste que já descansa os lixos de amanhã; restos de comida e fome, borras de café sem sorte - lê pra mim? pensei ter-te ouvido, neste sotaque decorado nas carnes; mas, eramos só eu e o quarto, as notas de Alice Coltrane repetiam-se, tautologia sonora; pensei ter te ouvido mesmo, num sussurro, que era apenas sopro do ventilador, hoje virado pro lado certo. 

Um comentário:

Daisy Serena disse...

https://www.youtube.com/watch?v=QUMuDWDVd20