1.10.15

Zanzibar

tenho o corpo pisado pelas rãs e palavras abençoadas aguardam vez na minha boca. chove sobre mim. os meus dedos respiram. os meus olhos celebram a chuva numa alegria seca. 

junto água à terra que os meus pés pisam, faço barro para cobrir o corpo. é no barro húmido sobre o corpo nu que as rãs deixam as peugadas que irei decifrar atravessando o tempo.

espero o tempo passar para entender o cântico do meu corpo junto ao teu; assistir, sem medo, à partida das rãs, invoquei-as e elas atenderam. esperei - sob o sol, tempestades, pequenas mortes, celebrações e fugas, e acreditei sempre na chegada delas. sei o que vivo na pele feita macia pela areia molhada; 

o amor é uma palavra suada entre os meus dedos - devo isso ao destino e ao instinto.

sua, noite. entre os teus dedos o meu corpo existe para celebrar o amor. empurro a palavra madrugada e é doce essa tarefa. pronuncio palavras ao teu ouvido. palavras que o esquecimento acolhe no seu regaço, palavras para reprogramar o teu sentir. que a travessia aconteça. que os camelos paralelos a nós possam transportar água suficiente e o sol nos seja brando. que o vento não anule as peugadas das rãs. de tempos a tempos necessitarei desse mapa.

quero o caminho de volta ao meu corpo interno vindo já cansado de pisar o teu. o teu corpo doce. as tuas mãos pequeninas. os odores que libertas ao amar - os que incorporo depois de os inventar para mim: sândalos, maresias, amanheceres, cabelos de gato, as danças que só acontecem contigo antes do teu corpo e durante tu.

se me deito entre o teu olhar e a sombra densa da madrugada, adormeço. e que pesadelo bonito tenho ao frequentar o teu sono, aí onde dormes quieta e leve, de curta penugem vestida e pele doce a acompanhar-te o corpo - sonhos pendurados, inofensivas adagas, humidades arremessadas à noite contra a solidão. beijo e brandura. mão e músculo. seio e sensualidade.

és a madrugada onde o tango prolifera.

a ausência dos dedos suados sobre um piano - soltam-se memórias em dias de primavera, um jorro de risos e noites se acumula, transborda, e tudo o que és se faz barca. entre um passo de dança e um passo dado, canta um pássaro delicado, a palavra saudade chega e se acomoda feito folha, tinta de entornar sonhos, gota de vinho tão tinto.

canta, andorinha: dentro do meu peito bates. exausta.
entre veias, vives e vais. o teu destino é bater asas num espaço que não há. trémulas tentativas, forçadas caminhadas, felicidades furtivas. aqui dentro o espaço é este - já o amor se queixa de ser tão breve, já a dor depois de aquecer arrefece.

em mim, apenas o meu corpo por gaiola.


| Ondjaki. in: o céu não sabe dançar sozinho |

Nenhum comentário: