7.10.15

Massoxiangango

"(...)

A mulher movia-se no silêncio nu da montanha, como se nunca tivesse conhecido raízes nos pés. Não era uma mulher que dançava. Era um corpo livre que podia autorizar-se a recusar um voo.

Nunca tinha visto um corpo desenhar tão claramente uma dor. Ainda que não me fosse possível decifrar o desenho: uma dor é uma figura fugidia para quem está fora dela. Os pés em círculo imperfeito, as pernas indomáveis, o vestido louco entre o movimento e o tempo do vento. O choro da montanha de pedra, escura, à espera - como eu - do voo. O corpo movia o mundo. Esse corpo com mil crianças dentro dele, e as suas bermas, e o seu som surdo, e as suas mãos aladas, pontiagudas, sibilantes. Gritavam as crianças dentro daquele corpo e ainda assim - tudo era mansidão. Desejei que chovesse porque a qualquer momento eu estaria prestes a chorar.

(...)

- Os velhos não morrem. Vejo no seu olhar que você sabe disso. Quantas vezes você se deixou morrer?

A pergunta deixa-me tonto. É tão certeira que me faz tremer o peito. Agacho-me. Olho o chão. Chegam-me as primeiras lágrimas.

(...)

- Você dança para corrigir o quê? - perguntei.

- A vida.

- E pra contar...?

- O que já vivi. E o que ainda não vivi. Isto que você me viu dançar agora, e que qualquer um podia ter visto, é o que já vivi. O que posso corrigir. Mas isso que você me viu dançar agora, e que nem todos podem ver, é o que ainda não vivi."


| Ondjaki. in: o céu não sabe dançar sozinho |

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