21.9.15

.SANGOMA: arte como escudo, lança e cura.


"No mundo Zulu, Sangoma tem três significados:
• As contas (colares): são usados pelas mulheres Masai e suas contas contam suas histórias, ou seja, pelos colares e enfeites de cabeça é possível saber se ela é casada, solteira, se está ou não disponível para relacionamento;
• O Canto (música): sinalizam a função que a pessoa exerce na comunidade;
• O Santo (herança ancestral): curandeiros da comunidade, quem mantém o equilíbrio natural, espiritual e em sua maioria são mulheres. A pessoa é escolhida pelos ancestrais, começa com sonhos repetitivos e isso é um dos chamados. Há uma música de iniciação que se chama Angnalana que significa: “eu não consigo dormir” e a partir disso começa a aprender com outros Sangomas sobre a natureza e seus segredos.” (FERREIRA, Marcos.  Onnin)

Tem dor que emudece a gente. É essa a frase que ricocheteia, repetitiva, da parede do estômago à glote, não ultrapassa o túnel, não arrisca o passeio pela língua; como colocar na fala fosse trazer à tona camadas devidamente enclausuradas. 

O amarelo solar da casa parecia prolongamento d’um dia especialmente quente, embora o entardecer da zona sul já trouxesse um sopro fresco. Me sentia convidada a uma serenidade distante dos domingos ansiosos. Éramos trinta e um adentrando o jardim, inicia-se o ritual. Donde estou meus olhos só alcançam fragmentos da movimentação de Rose de Oiá, majestosa em tecidos brancos. Abaixo o rosto; apenas sinto. Segundo momento se mostra, é um canto polifônico que vem do alto. Cinco mulheres, entidades, não é a laje que elas atravessam, é lugar-outro, dimensão-outra, e nós ali: olhares recebendo suas toadas líquidas: suor, lágrima, sémem, saliva, sangue.

Seguimos num cortejo, somos apresentados aos cômodos, somos parte, não sabemos ainda direito de quê; os retratos e quadros, dependurados nas paredes da sala, poderiam ser registros de quase todos nós. Quando voltamos ao corredor principal nos é apresentado um vídeo, há dados – que são necessários números, que é preciso estatística para saltar aos olhos o que nós sabemos pele, o que é deixado na invisibilidade cotidiana – e é aqui que evidencia-se o que nos cabe, a identificação e a dor que a cada frase exposta, trava uma fala.

Fendas abertas. Prosseguir.

Eu poderia descrever cada um destes cômodos, tentar esmiuçar os cenários, figurinos, a potência das escolhas de luz, a verve de cada atuação, mas escolho falar de como me senti; que é resultado dessa junção. Escolho falar, engasgada, ainda que, aqui digitando - tem dor que emudece a gente – os dedos vacilem; que é preciso dizer, que é preciso desvencilhar do silêncio que sempre nos foi designado.


O amor como pulsão de vida & morte

“O sistema escravocrata e as divisões raciais criaram condições muitos difíceis para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. (...) precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar. (HOOKS, bell. Vivendo de amor)

Dentro dessa lógica, é muito pontual que o subtítulo seja “saúde às mulheres negras” e que dentro de cada narrativa as formas de amar sobressaiam-se. Nunca é demais repetir que as mulheres negras foram criadas para abarcar, cuidar, para a obediência e resiliência. Tendo de aprender a engolir seco o saber-se fora do “ideal” (estético/histórico), aquela que só no descuido faria parte da reciprocidade do amor - embora nos fundos, nos quartinhos... -. Então, como crescer, reconhecer-se, constituir-se com zelo e generosidade? Como não olhar para si desejando ser corpo-outro (o corpo sendo matéria que retém toda subjetividade)?

“O segundo traço da violência racista, não duvidamos, é o de estabelecer, por meio do preconceito de cor, uma relação persecutória entre o sujeito negro e seu corpo (...) um corpo que não consegue ser absolvido do sofrimento que inflige ao sujeito torna-se um corpo perseguidor, odiado, visto como foco permanente de ameaça de morte e de dor.” (COSTA, Jurandir. Da cor ao corpo: a violência do racismo.)

Assim, amor e doença são partes do mesmo balançar de corda: encantamento, paixão, gravidez, violência doméstica, abandono, violência obstétrica, estupro, abandono, aborto clandestino, hemorragia, abandono, morte, abandono, solidão, rejeição, submissão, abandono, depressão, abandono, festa, sorrisos, abandono, falta de acesso, abandono, abandono, abandono...

Enquanto essas palavras reverberam, como não deixar as lágrimas delinearem poros e traços? Ana Paula, Audre, Antônia, Mãe Soninha, Mameto perpassam seus olhares oscilantes, entre o que punge e o que vigora, em cada rosto, encontram-nos marejados, atentos, e se demoram neles – um instante que é o todo – cada cena compõe um retrato, o retrato como memória, a memória como ferida: uma ciranda ininterrupta.

Mas, embora pareçamos fadadas a essa circularidade de elegias, a peça nos traz alento com o traçar de seu cortejo: primeiro nos relembra cada sofrer, para então, passo a passo, nos inserir em seu processo artístico de cura. É outro modo de construção desta palavra tão melódica, sororidade, que rompe e irrompe, forma novas rodas, que sejam festejos e jongos: ritos de acarinhamento e cicatrização.




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Referências.

Capulanas – Cia de Arte Negra. http://ciacapulanas.blogspot.com.br/2011/05/espirito-sangoma-prof-marcos-ferreira.html

COSTA, Jurandir Freire. Da cor ao corpo: a violência do racismo. In: SOUSA, Neusa Santos. Tornar-se Negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: GRAAL, 1983.

HOOKS, bell. Vivendo de amor. [s,d]. Tradução. Maísa Mendonça. 

2 comentários:

Flávia Rosa disse...

Maravilhosa Daisy!!
Realmente estava de com todos os poros dilatados pra tanto reconhecimento!.
Cada pessoa absorve a medida de que está porosa nos sentidos do corpo, e vejo que VC estava muito entregue a esse "espetáculo vivência"
Obrigado pela confiança!

Daisy Serena disse...

Poxa, vida, que boniteza e potência essa troca!

grata a vocês por um domingo de muita reverberação!