24.9.15

Ougadougou

"...às vezes as pessoas partem, vão para mais longe
e parece perto"
(a menina no cemitério)

A minúcia. Entre os dedos e o todo das mãos. O olhar e os gestos calmos, certeiros. Adultos. Na sua paz, algo de infância em bruto se havia entrincheirado. 

Via-a por uma porta de vidro. Sentada, alternava a arrumação de papéis com as tarefas domésticas de duas bonecas antigas. Separava formulários, carimbava-os, separava pequenas fotografias. Penteava os poucos cabelos das bonecas, ajustava os casaquinhos, sentava-as melhor.
E esperava.

O calor, do lado de fora da sua sala, era perturbador. Bebi o resto da água que me sobrava, limpei as sobrancelhas. A menina viu-me. E foi quando a vi melhor. 

Imitou-me o estranho gesto. Mas fazia-o com a delicadeza de quem tem o rosto seco. Repetiu o gesto e franziu as sobrancelhas como quem não entende a finalidade da minha manobra. Sorrio. Aponto para as duas bonecas. A menina dispensa a minha atenção com um gesto breve. Não é sobre isso que quer falar. Aponta para as minhas sobrancelhas e espera. Espera que eu saiba explicar o que acabei de fazer.

Da sala ao lado, sob o olhar comovido dos presentes, um jovem entoa um cântico lânguido mas arejado. Imagino que a falecida (a quem a música é dedicada) possa estar a sorrir neste momento. 

A menina abre a porta para entender o som. Está extasiada. Poucas vezes ouvi alguém cantar na capela do cemitério. Ou cantar tão bem. Tão leve.

- Muito bom... - diz, devagarinho.
- Muito.

A música termina devagar. Mas não se quer soltar do cemitério. A música não quer ir embora, penso. Nem afastar-se das flores, do céu abrasador. Do labirinto de almas.

- Parece que não se vai embora... A música - diz a menina.
- Parece.

Mas cessa. Os presentes aplaudem com a devida maciez. A menina aproveita o momento, convida-me a entrar na sua sala. Quase sem me fitar, explica os papéis: formulários, autorizações, certificados, textos para lápides. Dois carimbos. "Fotos de quem já não está entre nós." A frase é dela.

No seu canto, toca as bonecas. As duas. Na testa. Nas sobrancelhas. Olha para mim.

- Esta aqui está viva... - depois toca a outra, cerimoniosamente. - Esta já não está entre nós. Sabias?
- Não sabia.

A estranha minúcia, entre os dedos e as mãos. Os gestos calmos. Uma paz dura, que não posso decifrar. Que não quero aceitar: não é possível tanta serenidade.

Sente-se nos corredores o rumor dos mortos. A menina senta-se a um canto. Aconchega as bonecas. A que ainda vive, e a outra. Agora sim, fita-me nos olhos.

- Eu estou sempre aqui. Vem visitar-me quando quiseres.

Abro a porta. Não me quero devolver ao calor. Quero só olhar o escuro desta menina. A sua voz parece fazer o sacrifício de me empurrar.

- Hummm... - suspira profundamente. - Anda a morrer muita gente... Pelo menos desde que eu nasci.

Lá fora - quente -, o mundo.


| Ondjaki. in. O céu não sabe dançar sozinho |


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