14.9.15

Madrid

- Você apanha um outro voo. Eu digo-lhe: não tinha um bom pressentimento quanto a este voo. 

- Não me desloco em função de pressentimentos, meu senhor. Tinha coisas marcadas para amanhã. 

- Então você desloca-se em função de quê? 

A pergunta era difícil. Bem colocada. 

Deu-me vontade de rir. Será que eu já tinha mesmo perdido o voo antes de ele me abordar? Este homem, de facto, espreitava futuros? Senti-me o tal espelho. Eu não estava ali por mim, mas apenas para que ele se pudesse refletir na conversa. 

- O que acontece se você fizer força, muita força para se lembrar do seu passado? E se olhar para uma fotografia? 

- Só recordo coisas distorcidas. São memórias de outros. Mesmo estas conversas em reflexo chegam-se já diferentes. Lembra-se do que lhe disse?

- Que perdeu o passado. 

- Que perdi o "meu" passado - levantou-se, apertou-me a mão - O próximo voo parte daqui a sete horas, se não quiser seguir só amanhã. Vá. Não tenho nenhum pressentimento quanto a esse voo. Mas acerte o relógio. 

- Obrigado... 

- E...de vez em quando...deixe-se guiar por um pressentimento. 

- E se for algo errado? 

- Não se engane, meu caro - ele afastou-se devagar. - Não existem pressentimentos errados.


| Ondjaki. in: O céu não sabe dançar sozinho, 2014.|

Nenhum comentário: