29.8.15

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"meus pés sonham suspensos no abismo"
Roberto Piva


É um choro cretino, fica no meio-termo: invade-evade, mas não se desprende. [é quase irritante como um grupo de palavras se acopla em meu discurso, de tempos em tempos, de palavras em palavras] É um choro fácil até, se apoia na velha que serei, um eu profético e que, penoso, retoma essa trajetória [como se pudesse já ser finda] cansada, ainda que no agora-mesmo se mostre permeada por novos respiros: o choro ignora o que não lhe serve, descarta, é enviesado. O repuxo é guiado pela imposição de um imaginário que, numa associação aleatória, aprisiona; traz uma sorte de formas & meios de enclausurar.  Mas, isso não é da ordem do meu desejo: ambiciono aquilo que em mim sabe flanar - acordar sem o peso do topo da cabeça, aquilo que diz: o acesso está livre - no entanto, cá estou, estes poemas entre as mãos me dizem muito mais que os próprios versos, o trem para, a escada rolante segue seu fluxo, e eu, a cada desdobramento do corpo, a cada atrito das botas no piso, metálico, asfalto, sinto o bambeio do riacho, a tensão esmagando as têmporas. É um choro que não me diz nada, que não precisa por si ter narrativa: coloca som em vozes que mimetizam meu lamento, escracho, estar nu em frente a escola. Tento não enveredar por este dedo que me aponta, não sigo suas placas. Paro em frente ao mercadinho do bairro e o menino está envolto num cobertor, seu olho esquerdo é purulento, sangue vivo pulsa, me pede qualquer coisa que não me atento, as têmporas se condensam com força maior. Lhe entrego um refrigerante e um salgadinho, sigo. É um choro que é só uma máscara, é um choro que é só tentativa d'um lugar que não reconheço mais como morada, ainda que me conclame retorno - e que eu resvale tão facilmente - esconjuro a culpa que é a outra face dada do choro, aperto o botão do elevador enquanto viro a página do último poema. É choro fraco,  não irmana, que é preciso fazer outro café, fumar um cigarro, retomar aquelas fotografias. Dispus lado-a-lado as cervejas no congelador.


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