29.7.15

olhar para Sodoma em fogo foi olhar para si


A Akmhmátova & Szymborska



"A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás
e transformou-se numa estátua de sal"
Gênesis



O introito

Era pretendido um parágrafo que entremeasse os poemas de Anna e Wislawa, um modo de trazer a São Paulo, Julho de 2015, uma circunstância par. Seria também um pronome feminino. 


"Quem há de chorar por essa mulher? /
 Não é insignificante demais para que a lamentem?

Ela, que também era a mulher de alguém - pela segunda vez: a primeira, muito jovem, na busca desajeitada de sair da tutela dos pais deixou-se cair num imbróglio de grilhões ainda mais estreitos. Agora tudo era melhor - com um sorriso encabulado - diz que me ama e até varre a casa, não é?  - Voltaria a se perder em elucubrações.

"a praça onde cantavas / o pátio onde fiávas /
as janelas vazias da casa elevada 
onde destes filhos ao homem amado"

Sairia do trabalho às 23h00 num bairro pouco movimentado por transeuntes. Teria permanecido além do horário limpando as arestas d'um escritório de advocacia - que o doutor gosta de vê a ambição na pedra de sua mesa - o cenário se daria nessa ruela onde muitos faróis preenchem a vista como estrelas - sua bússola até o ponto mais próximo. Uma mulher mirrada, de uns quarenta anos, exibia uma postura firme - embora, os mais atentos pudessem notar a sutileza com que toca seu entorno. Esgueiraria-se rapidamente pela calçada desnivelada; os olhos feito lunetas, um derby amarrotado entre dedos de lustra-móveis. 

"A angústia falava bem alto à sua mulher"

Seria apenas este instante, o registro de quinze minutos cotidianos, quase banais, não fosse o corpo rijo a cada passo desconhecido em seu dorso. Não fosse o horror da espera d'uma proximidade ainda fantasmagórica. Não fosse o espasmo defensivo de pensar ter sentido um sussurro morno subindo-lhe a nuca. 

"Dizem que olhei para trás de curiosa / 
Mas quem sabe não tinha outras razões"

O ímpeto não viria por afronta, mas pela necessidade de pôr racionalidade, de ter concretude nessa subjetividade assombrosa, impedir o vômito do medo; as pernas que bambeassem por certeza, e não como impedimento para fuga. 

"Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -, 
seus olhos não puderam mais ver"

Podia ser que houvesse, podia ser só a penumbra ruidosa, mas virar-se seria deslocar o eu doutro - não importando mais se existência & ameaça - dar a ver a própria emancipação. Deixar  A mulher de Lot, para tornar-se Madalena, Maria, Joana... 

Ainda que acabasse em sal e pedra.
"Olhei para trás de raiva / 
Para me saciar de sua enorme ruína"

"Meu coração nunca esquecerá /
quem deu a própria vida por um único olhar."

Um comentário:

Daisy Serena disse...

Referências.


Wislawa Szymborksa. A mulher de Lot, 1976.

Anna Akhmátova. A mulher de Lot, 1924.