13.7.15

Cosmologia Imaginária

Então, no começo foi assim: mundo nascido num reverso. 

Do interior das contas d'um rosário esquecido aos pés da pitangueira, emergiram estas sementes que nunca antes; nem entre os canteiros, ou, na mais labiríntica mata inacessível à pulsão destruidora dos homens. A febre ante o desconhecido ensandeceu a busca dos cientistas - que é preciso saber...que é preciso catalogar para existir. O mercado, subjetividade regente duma orquestra esganiçada,  já movia próprios interesses - que importam explicações? diremos que o extrato da semente é bom para... e que a dona-de-casa pode cozinhar com... - Dentre as manifestações imediatas incluiu-se cultos insones no entorno arbóreo: festejos, promessas e orações. 

Quem por ali tivesse transitado no ordinário doutros dias, teria visto sua copa arredondada esquecida na esquina d'um casarão. Os proprietários, senhora e senhor de requinte, lhe ofereciam o dorso com indiferença. No entanto, agora passaram a estudar arquiteturas que pudessem cercar a árvore - rumor de que Seu Antônio, o caseiro, receberia um extra para ser bilheteiro das visitas, já se alastrava pelo bairro.

Entidades religiosas e políticas uniram-se e desprenderam-se em voracidade esperada. Conflitos implodiram, como rizoma deste tronquinho, na erma rua 15. Atos [poéticos, políticos, posados-farsescos] desdobraram-se pelas praças e avenidas -  é público, é privado, é tudo-nosso, é tudo-pago. Os meses e os noticiários nada além de tautologia, e ainda podiam ser vistos alguns fotógrafos na espera inútil de algum enquadramento inovador para registrar o canteiro. 

É preciso dizer: bem sabemos que distopia, silêncios, guerrilhas, amizades desfeitas por um rosário ainda abandonado e sementes brotadas do interior de seu dogma, pode parecer um tanto exagerado. Mas, diante disso, evidenciamos o caráter único do acontecimento; não é cotidiano brotar sementes d'uma conta - quais as de vovó; madeira escura, rija - e com menor probabilidade sementes em cor e nuances que nunca antes - outro rumor aponta para a mulher que transitava cabisbaixa no instante exato da epifania; cega ao olhar de supetão diretamente para.

A tensão se distendia ao limite. Foi o poeta, num descuido pueril, que botou fim, sem qualquer impedimento; a mão valsando até o canteiro. Uma semente entre os dedos, áspera e tremula; como se dissesse, e dizia. Como segurasse o mundo entre as impressões digitais, levou-a ao ouvido; o canto d'uma ciranda antiga percorreu-lhe as vértebras. Na desmemória de si outros seus pareciam viver noutras vidas, num mundo-broto que ignorava o que daqui era só ruína, num mundo-outro que se desmedia. Foi mesmo um instante em suspenso, um tropeço de poeta distraído que come semente, como fosse amendoim.



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