27.7.15

Ao destinatário,

Sempre retorno àquela de Clarice em uma carta a Elisa, sua irmã. A frase, que não lembro com exatidão, traz que a pulsão da fala vem justamente quando não se tem nada a. Sou tomada também, invariavelmente, por um pesar; que Clarice tenha se tornado para-choque de caminhão, que sua sensibilidade seja reproduzida como auto-ajuda de banca de jornal. Mas, o caso é que desde o ruir do nós, isso sempre me ricocheteia, como um impulso; por saudade, afeto, auto-destruição, pelo que ficou no não-dito, deixado na conta do tempo, do esquecimento. Seria bom, né? Não precisar resolver, deixar no vento - que mal sopra nessa cidade, tu sabe; talvez seja isso também; lançamos, mas tudo fica preso nessa nuvem bege de poluição - e que ele se encarregue de dissipar[-nos]. 

Só que eu não esqueço, querido, embora tente com todas fibrilações, como uma meta, como uma irmandade: só por hoje não! Traço e, no instante-mesmo, lá está o pensamento, os dedos rascunhando versos, os ouvidos buscando aquela toada - como fosse teu o canto, como pudesse alcançar qualquer resquício acoplado nesse silêncio... - e tudo se mostra tão disperso, confuso, a frase de Lispector entremeando todo esse processo: da promessa à verborragia solitária, da dezenas de emails deletados às imagens escondidas naquela pasta com tua inicial. A frase contundente como um dedo em riste, expondo mais do que a própria vontade-de-dizer, me estapeia: não há nada a ser dito! Não há mesmo mais nada, não neste cenário, não há mais reentrâncias que eu possa oferecer como porta de entrada. 

Qual tua frase naquele velho e-mail, quisera eu também escrever uma oração da serenidade, que na aceitação houvesse a coragem dura de tirar a cadeira do jardim: não mais me enganar que prostrar-me frente ao portão é mero acaso, é o anoitecer florescido que observo, quando sabemos, não passa d'um lamento, d'uma espera: Penélope tecendo a própria repetição.

É justamente quando não há nada a dizer, que nada deve ser dito.

2 comentários:

Felicidade Clandestina disse...

"[...] estou perdido no meio de tantos particípios passados. [...]"

Daisy Serena disse...

É isso mesmo, minha querida....