23.7.15

.a noite dividimos flores.

mouca, a fala no vídeo não era essa. Estendi o braço tateando para alcançar o caderno, boa frase para mal entendimento, os dedos tocam celular e algumas formigasNo relógio quase três. É preciso dormir, repito num fio de voz; tento convencer a inquietude das vintequatrohoras despertas em histeria, que ainda luta, embora já tenhamos saído da trincheira. A cabeça, física, biológica como nunca, contesta com pontadas contundentes, reclama seu lugar de descanso. Me esforço; mudo a posição do tronco, alongo os braços, afofo o travesseiro uma-e-outra-vez, coloco aquela sequência de músicas - que fere, mas acalma [que parece mesmo só sei existir nessa dor] - sei que o método mais eficaz é aquele seriado, mas não tenho coragem, não hoje, não aquela felicidade estúpida, não posso me permitir o desguiar, mas é preciso dormir,  pela manhã o arrependimento não será menos perverso; ainda assim, dou o play noutro programa, aquele que sabe pulsionar a ferida, uma abertura antiga persistente à cicatrização. Em algum momento, vencida na tensão que se alastra pela coluna, evado num sono denso. N'um último pensamento me apego à frase errônea, quero lembrar, quero percorrer toda sua poesia.


A frase era: a noite andamos em círculos. Sim, tautologia, ciranda, o karma num carrossel - vejam, senhoras / senhores, a mulher deja vu - mas, eu escutei:  a noite dividimos flores. Se me deixo valsar na semiótica do inconsciente, penso que há uma mudança agindo, não mais permitir o labirinto como repetição, fazer deste prazer território fértil, heterotopia, jardim chinês.

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