29.6.15

[seu nome é um trocadilho barato ou como regurgitar certas paixões]

La questión, Dolores, é que seu nome é um trocadilho barato do qual você fez roupa e essência. Se deixou definir pela veia dramática, espanhola, que percorre o sangue e as castanholas dependuradas no brasão de sua família. Parece que nasceu e ali, do útero para o mundo, já lhe aguardava uma bifurcação. Quem sou eu pra lhe julgar diante dessa biparidade, não é? Sofrer ou causar-a-dor? (apontador & epifânias psicanáliticas) Parece que, ao contrário da tradição católica, tu não quis ser mártir, não. Admiro, invejo a contundência, mas, porra, no acalanto da paixão não pensei teu gatilho pudesse escolher as minhas costas - que pior, tu não me atiraste contra o peito, justo eu; blusa aberta, gritando na praça: vai, se tem coragem, se tem vontade, põe desejo e mira. 

O que esvaía de ti eram só sorrisos - cínicos, cênicos, deixando ver ranhuras onde o batom não alcança - frente ao meu drama ébrio. Dolores, eu me lembro tanto, mas não recordo a hora, se o sol estava alto ou despedindo-se por entre os prédios. Teu corpo se desprendia feito folhagem, as pontas dos dedos na ponta da minha dor, as unhas vermelhas perscrutando a ferida - minha seiva exposta - e aquela velha brincadeira de só acreditar no que toca, de só ser real o que punge - mas, no hay banda, não é? ainda que verta sobre seus lençóis, no hay banda, é tudo uma construção, é tudo fílmico e tudo dói.

Parece mesmo que a única forma de anular a combustão é não conter. Deixo soltas em meu pasto todas as metáforas, testo neologismos que Barthes gostaria de colocar no capítulo que descreve tua ausência

- pois que, toda ausência é tua nesta tarde. 


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