24.6.15

:Ubuntu:

"É uma perda de tempo odiar um espelho / ou seu reflexo / em vez de interromper a mão / que constrói o vidro de distorções / discretas o suficiente para passarem despercebidas / até que um dia você examina seu rosto /sob uma luz alva impiedosa / e o defeito em um espelho te atinge / se tornando o que você acredita ser o formato da sua falha / e se eu estiver junto desse seu "eu" / você me destrói / ou se você conseguir ver  que o espelho mente / você estilhaça o vidro escolhendo outra cegueira / e mãos cortadas e indefesas. / Porque ao mesmo tempo / descendo a rua / um fazedor de espelhos sorri criando e transformando novos espelhos que mentem / vendendo-nos novos palhaços com desconto."

[Audre Lorde - Bons espelhos não são baratos]



A pulsão vital tem sido mesmo um questionamento. O quanto d'uma certa pasmaceira não tem raiz no que nos influi historicamente? Como toda força ficasse guardada para arroubos apaixonados, para uma determinada disposição servil, sempre externa; reconhecendo, assim, no que é apenas interno, uma grande farsa. 

Sinto o movimento das sinapses, uma potência condensada que não se permite fluir; é a gastrite, doutor. Essa energia karmica do carrossel que me povoa, o mecanismo giratório acoplado à boca do estômago. Alteram-se os elementos sobre os quais me prostro, mas, a ciranda é sempre uma ciranda.

Essa é uma fala repetitiva da qual busco descarte. Há de ter um desejo que se fortaleça além do sintoma e seu enervamento rizomático. Não há mais modos de chafurdar neste lodo rotatório. Se trata de destruir a engrenagem, esmigalhar seus conectores, do pó ao pó e findo. Desejo o samba fibroso, os pés descalços resignificando o "estar na lama", fazer deste desterro mais que banimento, torná-lo território; alimentar-me do que é telúrico enquanto o farfalhar da saia, e o suor catártico de toda-dança, fazem de meu corpo o todo, e que deste todo a síntese seja um eu mais próprio.

É que no meio de tantas migalhas, tanto choro, tanta dor - cada vez mais aguda, cada dia desdobrando-se em novos motivos para desacreditar, gritam as seções de notícias (emudecem-se aos berros as infindáveis misérias não-noticiadas) - não quero mais depositar meu credo num caminho onde só aviste ermos inférteis. Não quero mais espelhos turvos, me prefiro refletida na alteridade de meus amados. A busca da força que possibilite desconstrução tem de vir dessa troca vivida. É na partilha que a languidez debanda meu corpo, é na entrega. Nesta curva afrouxo meus medos, o excesso de autocontrole, aceito a sobreposição de máscaras - são tantos os rostos que nos constituem. 

É tudo um fio, frágil, um instante; eu as vejo, eu os vejo: seus rostos, suas falas, os fragmentos que se desprendem e entrelaçam-se aos meus. A trajetória começa a se remodelar, menos espinhosa, quiçás, quiçás, quiçás.  



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