11.5.15

vão cerzindo um imbróglio com a mesma paciência de vovó em seu crochê

ele e certo olhar rarefeito,  como não estivesse de fato ali, embora, o corpo sinalize vigor quando a ponta dos dedos de Joana percorrem a sola de seu pé. a verborragia e o domínio sobre a língua nervosa dela; ansiosa pela entrega, qual seja, que seja toda, sem mistérios, sem falácias e sem qualquer boa oratória, verdade seja dita. 

de qualquer modo, ambos estão absortos pela lentidão da manhã, todo domingo comungam deste momento: ele torrando fatias de pão-puma, Joana passando o café, entre cigarros, falando, sempre falando; até que, num instante em suspenso, sente o olhar distraído pousar no farfalhar de si, e então, uma troca de sorrisos - ela sempre se pergunta depois se sonhou ou se de fato... 

o caso é que é exatamente aqui, algo preenche toda cozinha, toda-ela, um impulso - tão clichê, tão sincero - percorre-lhe a espinha, quase irrompendo em euforia, que ela apreende num movimento súbito de levar a mão aos lábios.

há um deslocamento. 
comem em silêncio. 
ele se vai, que é preciso. 

não é com tristeza que Joana acende mais um cigarro; ainda que reconheça, na lassitude de levar o isqueiro aos lábios, o canto d'um lamento antigo.

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