11.5.15

têm misérias que não servem à escrita,

no entanto, escrevo.  claudicando e mouca, como num jogo infantil: o pirralho, com uma camisa vendando-lhe, precisa acertar o rabicó no burro grudado com fita-crepe na parede; bambeia entre os amiguinhos que, numa polifonia desatinada, gargalham, caçoam e tropeçam uns nos outros com copos de itubaína nas mãos. em dias como hoje, sou a tríade: o menino entontecido, a tira de pano penso e o burro que, inevitavelmente, terá uma e outra parte, que não a bunda, atingidas por um alfinete menos cego do que deveria. 

é disso que falo. aos frangalhos, só posso oferecer analogias que tragam uma imagem-outra da velha dor contínua; é engodo, meu bem, é dizer tudo diferente engendrando o mesmo oco. verborragizar para fazer suportável a languidez dos ponteiros, essa tortura sem fuga possível; que o dia se prolonga e a noite será insônia, o quarto imensidão ou claustrofobia, os pesadelos tão certos quanto...e decodificados como sinais d'algum terror maior. e sabe-se, o horror pode ser desvendado nas marcas d'um rosto amargo, naquele vinco que o cabelo esconde, no reflexo do choro esganiçado. então, escrevo, como salvação, páginas e páginas de coisa alguma, engolindo a pulsão maior de encarar d'uma vez o espelho.

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