22.5.15

:sobre pulsões vitais:

"A construção da beleza é a construção do desejo" foi a frase que ouvi ontem. De tantas coisas que me fizeram sentido, essa retumbou pela ossatura.  Referia-se ao ideal estético (mas, não só) e a como a imagem é construída a partir disso. Como me vejo no espelho caleidoscopiar de quem me encara & quem desguia. 

Poucas coisas têm sido capazes de vigorar-me verdadeiramente. De me enlaçar ao ponto da criação (que nos é tão cara!),  ainda que exista a fagulha, falta butano para dar fogueira. Mas, quando a pulsão vem, me toma como avalanche, me arrasta para a euforia, para um reconhecimento total e momentâneo, me desterra d'um limbo e põe lugar. 

Esse motor tem-se aquecido na luta e no que se conflui: as mulheres, mulheres negras, trabalhadores de base. Nos modos de combate que não dissequem o enfrentamento da arte; que esta possa se desdobrar em possibilidades que deem voz, imagem, toada, que ponham po-ética na política. 

Para além, há os bons encontros, os amados, as risadas que beiram a histeria, o vincular-se e reconhecer-se nas sutilezas do cotidiano [que já tão endurecido e fabril], saber quais as piadas das melhores amigas [e construir tantas-mais juntas], compartilhar com os meus da música, do choro, da insônia e do vinho.  Selar e depositar a carta no correio, acertar aquele acorde no ukulele [sim], gravar e enviar poemas e trechos das leituras [estimular-se a ler para narrar], entremear escritos, conseguir fotografar o momento exato, o apartamento vazio enquanto passo o café ou os amigos pelos colchões no amanhecer das 06am [a respiração de vocês embalam-me em calmaria], os momentos de conversa no café da esquina. Também havia uma lista daqueles livros, daquelas músicas, daqueles filmes que me dizem tanto, mas seria injusto - que há sempre algo a editar, a acrescentar. 

É um amontoado, uma tecedura, que lenta, que dura vai resistindo por entre os nós, que tantasvezestudoisso pulsiona mas não "transcende", que o outro lado [aquele que conhecemos bem] faz majestade e devora-nos os vigores possíveis. É preciso volta-e-meia chutar o pé pra trás da linha, estar meio fora para perceber que, afinal, não é tão pouco assim.

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