7.5.15

Quinta-feira

Para além de atrozes noites de terror
Me levanto
Rumo a uma aurora deslumbrante
Me levanto
Trazendo as oferendas de meus ancestrais
Portando o sonho e a esperança do escravo
Ainda me levanto
Me levanto
Me levanto

| Maya Angelou |


Desde aquela quinta-feira sombria, quando abril mal se descortinara, esse dia não é só mais um dia de bater o cartão, cumprir a jornada, retornar para casa, limpar, ler, descansar. Desde aquela noite, quando mais uma de nós sangrou, quando os mecanismos, novamente, silenciaram-se embrutecidos, a quinta-feira ganhou potência de sororidade - palavra que, não por acaso, é sonora, timbra, retumba. 

Sei que, trôpegas, buscamos estender, no cotidiano, as mãos umas as outras, que essa pulsão tem aberto fendas. Mas, nesse dia consigo enxergar o vigor eclodindo seu gozo: que botamos os corpos - reificados, hipersexualizados, escorraçados - em seu lugar de arma; que as subjetividades, os prantos, os temores, confluem-se na polifonia de nosso canto; que as palavras exaltam-se, escorrem do papel para a língua, da língua para a multidão, que volta arrastada, ordenada, no fluxo que nossa dança perturba, que nossos cartazes desterram os olhos curvados para a tela, por um instante, tão efêmero, tão instantâneo, mas, que pela repetição, faremos cravar.  

Nenhum comentário: