7.5.15

O caso se deu assim:

Era uma quinta-feira. Transitava entre o calor e o frio de modo peculiar - quando trêmulos fora, acalorados dentro; se o ar condicionado excedia-se no escritório, blusas se despiam pelas calçadas. Faltavam quinze minutos para uma hora de almoço, ela já calculava o percurso: quanto tempo levaria se, mas, por outro lado aquela rua lá. No fim, acabara no caminho de sempre: virar a esquerda, atravessar o elevado, pensar, de novo, que deveria estar com sua câmera; porque, olha, aquela luz, naquele senhor, sempre com o colete caqui, sempre prostrado no banco do antiquário, virar a primeira a direita e seguir. 

Haviam depositado os poucos réis do mês. Além dos planos de ter na geladeira mais que o resto de um vinho duvidoso e cascas de cebola roxa - no forno, caramelizam-se, caramelizam-se! - tinha, finalmente, decidido dar um corte nos cabelos, nada grandioso - nem os planos, nem o corte - apenas alguém confiável que não cague a coisa toda, repetia-se. A operação, no entanto, continha duas falhas: 1-)  não existia o alguém, apenas o ímpeto do dinheiro na mão e a certeza de sua finalidade; 2-) ela se conhecia duramente, e ainda que tentasse ignorar, previa a pontada de gastrite que acompanharia a rapidez exigida para essa decisão . 

Previsível e acertado. A quantidade de ofertas às portas da galeria já lhe causavam aturdimento: a miscelânea de sotaques, olhares vigorosos, quase mendicantes, e as mãos, tantas mãos, tantos toques, nos braços, no cabelo, que é tudo seu? não é peruca? Então, um sorriso, uma doçura qualquer a qual ela se filiou por desespero. 

A escada rolante mal comportava uma pessoa, a moça de tranças longuíssimas e calças coloridas, agora já não sorria mais; apenas direcionava-a apontando mais uma escada. Enquanto subiam,  uma, espreitava com olhadelas entremeadas por frases numa língua estrangeira; a outra, também tentava se comunicar, explicar que só queria um corte simples, mostrou uma foto impressa no trabalho; a resposta veio num sorriso breve: sim sim, claro, sim. Mais um lance e já entoava cantos de despedida aos fios, incapaz de dizer que não queria mais, que tudo bem e obrigada, que cinquenta reais era além, que só tinha cascas de cebola na geladeira. Por fim, um corredor; ao fundo, uma sala improvisada, uma tesoura pouco-profissional: algo estava realmente para... 

Sei, leitor, que a construção da narrativa pede um desfecho mais dramático: assimetria, dois anos de cultivo acabados numa tesoura de cozinha, choro, samba e amigos consolando com o clássico, mas cabelo cresce, afinal. Temo decepcionar com o que temos a oferecer. Os ancestrais piedosos acalmaram aquelas mãos excitadas, pouca diferença se fez. A moça das tranças puxou seus cachos e bonita, assim, bonita, bonita. Em seguida, sacou um celular do bolso traseiro, registrou sua obra, uma e outra vez, antes de, num movimento ágil demais para a fuga, girar a tela para o rosto de ambas: para enviar à família em Angola, moça.
   


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