13.5.15

- mas, o que eu queria dizer não tinha nada a ver com isso.

quase bruta, como só as verdades podem ser. faltou-me tato na discussão,  era isso que afirmava no tom da voz, firme e sussurrada. não permitia minha confusão na sua retórica - ah, mas não, que aqui não tem deixa-disso ou vem-cá-doçurinha; como se minha fala fosse de qualquer sentimentalismo, como fosse sorrir à tua condescendência e ir para a pia lavar o prato de salsicha e ketchup; que, aliás, ainda não entendo como consegue comer essas porcarias - então, a respiração soltava-se lentamente, para que ela, numa didática irônica, seguisse explicando que o que quisera me falar se tratava - você sabe, muito bem, Ricardo - daquele plano, no filme de ontem, e não tinha nada de pessoal como, por descuido, eu havia sugerido minutos atrás - nem tudo se trata de tratar o nós, os nós do nosso enrosco - era só que não fazia sentido pra ela, saca? só queria saber, mesmo, da minha opinião sobre aquela sequência: o travelling da câmera flanando pela porta-dos-fundos, perpassando o olhar fugidio da protagonista até pousar em sua iris, que refletia a janela lateral. havia alguém refletido no vidro: era a outra, ela-mesma, era o duplo, ou só presunção de diretor que espera exatamente esse tipo de debate ilógico? - e o pior é que não tem nada sobre na internet - costumeiramente resvalava num lugar comum, perguntando-sem-esperar-resposta se estaria perdendo a sensibilidade e a coisa-toda era muito óbvia - mas, me diz, que é 'a' coisa, afinal, pra você, Ricardo? é só isso e dou por fim, nem quererei trazer aquele final estúpido, apesar que... -  e, de supetão, silêncio; uma tragada, um gole, os olhos postos em mim, indagantes, enquanto eu...como gostava de ouvi-la narrando, como era bonita, como.... eu torpe, balbuciando sentenças fragmentadas, procurando o jeito menos incorreto de dizer: é que, Joana, eu tinha acordado tão cedo...    

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